O Mundo Codificado – As Coisas

Diurno, Aula 03 – 15.03.2010

O ovo é tão óbvio que ninguém vê”
Clarisse Lispector

COISAS

Vilém Flusser, o autor de “O Mundo Codificado”, dividiu seu livro em três partes principais, em que ele caminha com o leitor falando basicamente do mundo atual, suas mudanças, suas linguagens e a relação de tudo isso com o design. Flusser não faz isso como em qualquer livro técnico de design, mas também expondo a essência dos conceitos relacionados ao design.

Na Aula 3, os alunos se reuniram e fizeram a primeira mesa redonda sobre o livro, e discutiram o primeiro dos três capítulos chave do livro, “Coisas”, que reúne vários textos de Flusser. Logo no início, ele explica que os termos “imaterial” e “material” não se excluem e que um também não é o contrário do outro, como comumente se pensa, assim como “coisas” e “não-coisas” não são palavras que indiquem oposição. Para ele, as coisas se encontram em um plano material, enquanto as não coisas se encontram num plano temporal, e que na contemporaniedade não vigora mais o conceito de espaço e sim a noção de tempo.

A linguagem da contemporaniedade é ditada pela velociadade em que o mundo muda, de forma que não devem nos importar mais os objetos. Eles não são verdadeiros, e sim a informação que eles contém de fato, é que existe. O autor exemplifica esse pensamento com a idéia de “mesa”: em que a mesa em si, a idéia de mesa, é essencialmente de uma superfície sustentada, essa é a forma da mesa, e essa forma é “in-material”, ela informa um material a se tornar mesa. Sendo assim, a matéria física,  é organizada como “mesa” a partir desta forma, e só a partir dela que o aço, madeira ou garrafas pet são organizados como mesa. Hoje em dia, a cultura digital possibilia que muitas das coisas não sejam mais importantes em sua forma espacial, e isso tende a ser cada vez mais comum.

Devido a estas mudanças, o autor diz que a forma supera a matéria pela qualidade de ser eterna, de ser imutável como idéia, e que o objeto de trabalho do designer de hoje e de amanhã projetar dessa maneira, de forma a alterar os conceitos atuais, mudar os paradigmas de hoje.

O designer deve projetar a alma dos objetos

Também foi discutido um assunto importante tanto para designers como para historiadores e antropólogos, que são as fábricas, porquê elas, como conhecemos, não deverão existir no futuro. O homem caminha para um destino em que não será mais escravo de suas máquinas, como é nos dias de hoje. O mundo privilegiado não será mais o das ações, e sim o das sençações.

Dorival lembrou também a importância da Bauhaus, na invenção do ideal de reprodutibilidade de produtos e objetos, que foi extremamente importante para a época, mas que hoje as necessidades do mundo são outras. No ambiente pós-guerra que a Bauhaus se situava, o importante era a fabricação rápioda e econômica de objetos para a Europa, que precisava se reerguer. Mas hoje em dia não faz mais sentido projetar assim em ambientes que não necessitem mais dessa urgência impressa nos objetos. O que deve ser projetado de hoje em diante é a alma que os objetos irão carregar.
Para entender melhor algumas questões sobre a “alma” do um objeto leia o texto de Wlater Benjamin, “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica“.

Na época da Bauhaus, o mandamento era de “Forma segue a Função”, e foi depois substituído por “Forma segue Forma”, e hoje devemos projetar “Formas que seguem a Ficção.” Dadas as necessidades atuais o designer não é mais responsável por projetar novos objetos, e sim projetar novos mundos, novas realidades, e que estas realidades novas façam uma mudança de paradigma nas pessoas, tirando-as do seu estado de conforto, e abrindo novas caminhos para os sentimentos e para a mente. Isso soa um tanto utópico, mas simples diferenças de atitudes podem identificar uma cultura ou outra. Foi discutido um exemplo disso em aula, com os modos de sentar oriental e ocidental. No ocidente, a utilização de cadeiras na maior parte dos ambientes coloca nossos olhos num plano que privilegia determinadas coisas. Já os orientais, por terem seu assento geralmente na altura do chão, estruturam pontos de vista absurdamente diferentes.

O designer  questiona o ato de sentar

A discussão desta aula foi basicamente neste ponto, o das realidades diferentes, e como os paradigmas de cada realidade são responsabilidade do designer, e são esses novos paradigmas que ele tem que desenhar hoje. Não importa mais qual será a forma da próxima cadeira da moda, mas o que se devemos começar a fazer é refletir sobre o ato de sentar. Foi falado também sobre a “Roda”, outro objeto de estudo deste trecho do livro, e sobre sua invenção. A própria invenção da roda foi uma mudança de paradigma, foi uma quebra no modo de pensar das civilizações antigas, imagine: um povo que ganhou o poder de mudar o curso da água, isso foi uma enorme evolução. E para não perder a oportunidade, emprestamos um conceito da biologia, que diz que: Evolução não significa exatamente melhoria, e sim mudança. A nova evolução precisa acontecer para qe se mudem os paradigmas do mundo atual, e ela já começou. A roda do mundo de hoje, são as fórmulas que o ditam. Assim como as imagens de telas eletrônicas só existem devido a organização que se tem de seus códigos, os projetos contemporâneos devem ser pensados e realizados de forma a organizar os códigos das realidades.

E assim entramos no ultimo capítulo da primeira parte do livro: “Por que as máquinas de escrever estalam?”. Vivemos num mundo mecânico, um mundo que gagueja, que estala. Este mundo não desliza como fazem tão precisamente os artistas do Cirque du Soleil, o mundo é travado. Para destravá-lo, somente extraindo dele sua verdadeira forma: os códigos que o moldam. Esses números são o mundo de hoje, são os bits, não porque ele sempre foi assim, mas porque são eles que movem o mundo de hoje. Se as letras quiserem sobreviver, devem simular os números, e é por isso que as máquinas de escrever estalam.

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2 Responses to “O Mundo Codificado – As Coisas”


  1. 1 Alexandre Palacio 4ano diurno 17/04/2010 às 5:03 am

    Alma dos Objetos

    ´´A única coisa importante nas coisas são as não-coisas´´,
    por exemplo: Em uma casa apenas usa-se o espaço vazio.Por um tempo pensei que as não-coisas eram dependentes das coisas, mas hoje penso que as coisas dependem das não-coisas.

    Alguém concorda?

    • 2 Cibermotores 06/05/2010 às 3:23 am

      De certa forma concordo Alexandre, ainda to tentando sacar as não-coisas, mesmo que elas sejam obvias, pois fazem parte do dia-a-dia, ainda to tentando sacar de verdade, para então projetar com elas. Mesmo assim também acho que são as coisas que dependem das suas não-coisas.

      Diego


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A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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