Arquivo de abril \27\UTC 2010

Apropriações do (In)comum – Parte 2, 26/04

Alguns links dos artistas comentados por Régine Debatty:

Trevor Paglen

Santiago Cirugeda

Otto von Busch

grupo Bijari

Brooke Singer

Santiago Sierra

Nathalie Djurberg

Marcel Dzama

Gabriela Fridriksdóttir

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Aula 6 (05/04/2010) – Noturno – Produto

O real e o virtual foram os focos principais da discussão da aula de Linguagens Contemporâneas do dia último dia 05, baseada no livro “O que é o virtual” do francês Pierre Lévy (São Paulo: Ed. 34, 1995).

Fazendo uma referência ao texto de Flusser, anteriormente discutido, falamos inicialmente sobre os processos online e offline e como ainda apresentam desníveis, sendo o processo offline ainda muito mais utilizado até hoje.

O texto de Pierre Lévy relembra que, no senso comum, virtual e real são coisas opostas, mas para o autor eles não são opostos. As pessoas consideram real o que é palpável e virtual como o não-palpável, ausente de existência, mas ambos apresentam a mesma natureza. O virtual pode se opor ao atual, mas não se opõe ao real.

Todos os projetos contemporâneos estão inseridos de alguma forma no universo virtual. Mas o virtual não se limita a desenhos feitos no mundo digital. A questão não é desenhar as mesmas coisas em softwares novos, mas trabalhar um conceito novo. O digital é a linguagem que atualiza o virtual. Projetar através da não-coisa é utilizar o virtual.

A palavra virtual deriva do latim “virtus”, que significa “força”, “potência”. Portanto, o virtual é aquilo que existe, faz parte do real e existe enquanto potência, mas ainda não foi realizado. Uma semente, por exemplo, é uma virtualização de uma árvore em potencial. Quando tem todas as condições favoráveis, ela se atualiza e se faz árvore.

A imaginação é considerada um “vetor de virtualização”, assim como a memória, o conhecimento e a religião, que não precisam ser provados. Essa última, por exemplo, é algo em que acredita, mesmo sem se ver.

Para Lévy, não nos localizamos no real, mas sim num local chamado realidade. A única coisa real que existe é o virtual. A dimensão do real é aquilo que está em potência, enquanto o virtual permanece no campo do invisível. Operar na natureza virtual é trabalhar com projetos que possam ser atualizados.

Os designers procuram uma forma nova de representar todas as dimensões em seus projetos, sem o uso de desenhos mirabolantes e chiques, sem o uso de diversos cortes, mas com uma forma nova de desenhar. As linguagens digitais permitiram que se chegasse à representação da terceira dimensão, e acreditava-se que se chegaria apenas até ai. Mas somos seres pluridimensionais, os objetos não possuem apenas três dimensões, tem N dimensões e por isso existe o estudo da holografia, que permite a visualização das coisas como um todo, ultrapassando o limite do 3D.

Além da dualidade real X virtual, outra confusão comum é opor o caos e a ordem. Precisamos parar de projetar coisas antagônicas. A ordem representa uma ordenação, enquanto o caos é uma organização, uma hiperorganização de natureza virtual. Não tem nada a ver com desordem. Assim como separamos partícula de onda, mas a física quântica prova que ambos tem a mesma natureza. Eles são capazes de ativar a subjetividade de nossos mundos.

Na Idade Média, o mundo dividia-se em química e alquimia, e com o tempo as coisas acabaram indo pelo caminho da química, por ser mais exato. Mas o mundo está caminhando para o retorno à alquimia, estamos em busca do subjetivo. Buscar a alma dos objetos significa buscar a subjetividade deles.

Como podemos produzir subjetividade? Ainda estamos no começo de uma nova era, que alguns autores dizem ser apenas uma condição e não um estilo de vida. Não conseguimos ainda atualizar todas as potências do virtual, está tudo muito confuso ainda porque vivemos tudo concomitantemente.

No dia-a-dia não temos mais certeza de nada. É com esse principio de incerteza que os projetos estão seguindo.

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Poro – intervenções urbanas e ações efêmeras

Ao discutirmos, na última aula de Linguagens Contemporâneas, “Apropriações do (in)comum: espaço público e privado em tempos de mobilidade”, logo me veio em mente o trabalho do grupo Poro.

O Poro é uma dupla de artistas formada por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada! Atua desde 2002 com trabalhos que buscam apontar sutilezas, criar imagens poéticas, trazer à tona aspectos da cidade que se tornam invisíveis pela vida acelerada nos grandes centros urbanos, estabelecer discussões sobre os problemas das cidades, refletir sobre as possibilidades de relação entre os trabalhos em espaço público e os espaços “institucionais”, lançar mão de meios de comunicação popular para realizar trabalhos, reivindicar a cidade como espaço para a arte.

Com a realização de intervenções urbanas e ações efêmeras, o Poro procura levantar questões sobre os problemas das cidades através de uma ocupação poética dos espaços.

Intervenções são quase sempre efêmeras. Duram o tempo de uma panfletagem no centro da cidade ou o tempo de uma folha de ouro cair de uma árvore. Duram o tempo do deslocamento do ritmo cotidiano para um ritmo poético, questionador. É possível re-sensibilizar o espaço urbano?

Uma intervenção pode durar o tempo em que a imagem-provocada ficar na memória de quem a viu. Ou o tempo enquanto as histórias de seus desbobramentos forem contadas. Quantas imagens uma intervenção pode gerar?

Decidimos fazer um site para nossos trabalhos para dividir com um número maior de pessoas nossas ações. E fazer com que esse momento tão efêmero, dure mais, se multiplique.

Acreditamos numa arte que crie relações entre as pessoas.

Este documentário aborda as principais intervenções urbanas realizadas entre 2002 e 2009 pelo Poro. Além das imagens e registros, boa conversa sobre arte no espaço público e questões tangentes.

Produzido pela Rede Jovem de Cidadania em parceria com o Poro. Realização: Associação Imagem Comunitária.

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As representações sociais e a subjetividade contemporânea

Fonte: Psicopedagogia.com.br

O conceito de representação social designa um conhecimento específico, o saber de sentido comum , um saber não-científico. De uma forma ampla, pode-se dizer que se relaciona a uma forma de pensamento social.

Os seres humanos vivem imersos em um mundo social complexo, mediado pela linguagem. Entre as muitas formas de comunicação possíveis, a linguagem, em especial, possibilita a transmissão, o intercâmbio, a modificação e a ampliação das representações. Cada membro de um grupo constitui representações, recebe-as e as transmite na comunicação. Assim, as representações individuais podem se converter em representações coletivas. Por sua vez, as representações coletivas podem se converter em individuais.

Ao internalizarmos as representações que intercambiamos com os outros, agregamos e omitimos elementos modificando-as e, uma vez apreendidas, essas representações vão formar novas imagens. Para Baeza (2003, p.08): “As representações sociais constituem modalidades de pensamento prático orientado para a comunicação, a compreensão e o domínio do entorno social, seja material ou ideal”.

Concordamos com Moscovici (1979) quando afirma que:

A representação social é uma modalidade particular do conhecimento, cuja função é a elaboração dos comportamentos e a comunicação entre os indivíduos. A representação é um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens fazem inteligível a realidade física e social, integram-se em um grupo ou em uma relação cotidiana de intercâmbios, liberam os poderes de sua imaginação. (Moscovici, 1979, p. 17-18)

Dito em outras palavras, é o conhecimento de sentido comum que se origina no intercâmbio de comunicações do grupo social.Por outro lado, o campo de representação designa ao conhecimento de senso comum uma forma de pensamento social.

Partindo de uma perspectiva esquemática, as representações sociais surgem quando os indivíduos debatem temas de interesse mútuo ou quando existe o eco dos acontecimentos selecionados como significativos ou dignos de interesse por quem tem o controle dos meios de comunicação. Além disso, as representações sociais têm uma dupla função: “fazer com que o estranho pareça familiar e o invisível perceptível”, já que o insólito ou o desconhecido são ameaçadores, quando não se tem uma categoria para classificá-los.

Moscovici escreve uma definição sumária das representações sociais:

Sistemas cognitivos com uma lógica e uma linguagem próprias. Não representam simplesmente opiniões a respeito de’, `imagens de’, ou `atitudes para’ mas teorias ou ramos do conhecimento’ com status próprio para o descobrimento e a organização da realidade. Sistemas de valores, idéias e práticas com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que permita aos indivíduos orientar-se em seu mundo material e social e dominá-lo; segundo, possibilitar a comunicação entre os membros de uma comunidade lhes proporcionando um código para o intercâmbio social e um código para nomear e classificar sem ambigüidades os diversos aspectos de seu mundo e de sua história individual e grupal. (p. 45)

As representações sociais aparecem na sociedade pós-moderna no momento em que o conhecimento está continuamente dinamizado pelas informações que circulam amplamente e que exigem ser consideradas como guias para a vida cotidiana.

As representações sociais não têm a possibilidade de assentar-se e solidificar-se para converter-se em tradições, já que os meios de informação de massas exigem a mudança contínua de conhecimentos e a existência de um receptor típico de nosso tempo, ao que Moscovici chama sábio aficionado ou amateur. Este é o aficionado consumidor de idéias científicas já formuladas e que converte em sentido comum quanta informação recebe, como forma dessacralizada e vital de conhecimento científico. Além de distinguir-se da ciência, o conhecimento de sentido comum tem rasgos que o diferenciam da ideologia.

Aponta Moscovici:

A ciência se preocupa com controlar a natureza ou por dizer a verdade sobre ela; (a ideologia) esforça-se por proporcionar um sistema geral de objetivos ou por justificar os atos de um grupo humano. Por conta disso reclamam condutas e comunicações adequadas ( p.52) .

Significa, então, que a representação social contribui exclusivamente ao processo de formação de condutas e à orientação das comunicações. Resolver problemas, dar forma às interações sociais, proporcionar um padrão de conduta são motivos para constituir uma representação e separar-se do que é a ciência e o que é a ideologia.

Por outro lado, a ciência se liga ideologicamente com o poder de “quem sabe”, e o sentido comum é desprezado porque significa a vulgarização e a queda desse saber. Tal menosprezo se explica pela desigual valoração dos conhecimentos:de um lado, a ciência e do outro, o sentido comum. Com efeito, esquece-se que assim como o conhecimento científico é incorporado à linguagem da vida cotidiana, constituindo uma autêntica rede de opiniões válida para a convivência social, o conhecimento popular de sentido comum contribui, em grande escala, para sustentar valores que a ciência requer para ser ideada.

Indagando sobre a dupla direção de fluxo presente neste processo, Moscovici e Hewstone atribuem ao sentido comum uma espécie de conhecimento de menor hierarquia científica (embora não por isso menos complexo), e que aparece de duas formas:

Primeiro, como corpo de conhecimentos produzido de forma espontânea pelos membros de um grupo, apoiado na tradição e o consenso. Sendo um conhecimento de primeira mão, é um terreno onde nasce e prospera a ciência. Segundo, como soma de imagens mentais e de laços de origem científica, consumidos e transformados para servir na vida cotidiana. (Moscovici; Hewstone, 1984, p. 685).

Quando o sentido comum foi estruturado de forma tal que o rigor possa fazê-lo ciência, produzem-se desequilíbrios e posições contraditórias que se traduzem na linguagem. O mesmo vocabulário tende a assimilar-se ao novo implicando substituição e desmantelamento simultâneos das cadeias lingüísticas existentes. Inversamente, a formação de uma representação social e sua generalização entranha a ingerência da própria língua na teoria, à maneira de um jargão científico que se converte em uma versão socialmente autorizada de um modo de acesso ao saber e aos fenômenos que são inacessíveis à coletividade.

Mediante o que Moscovici e Hewstone  denominam positividade, quer dizer, a repetição afirmativa de uma informação para minimizar seus aspectos negativos e suas qualidades, facilita-se que circulem dentro do grupo as noções que a representação social estrutura como explicação do cotidiano.

Quando Moscovici(1979) complementa sua teoria das representações sociais com seus trabalhos a respeito das minorias ativas e a influência social, dá dimensão ao descobrimento da ideologia que subjaz e domina o sentido comum como uma forma de pensamento social que pode resultar valiosa para a análise, descrição e desmantelamento da ideologia como discurso de dominação.

A subjetividade contemporânea está sendo transformada por desenvolvimentos tecnológicos em virtude da descontinuidade com a ordem das coisas precedentes. Concordamos com Levy (1999):

Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no começo de seu percurso profissional serão obsoletas no fim de sua carreira. A segunda constatação, fortemente ligada à primeira, concerne à nova natureza do trabalho, na qual a parte de transação de conhecimentos não pára de crescer. Trabalhar equivale cada vez mais a aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos. Terceira constatação: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que ampliam, exteriorizam e alteram muitas funções cognitivas humanas: a memória [bancos de dados, hipertextos, fichários digitais (numéricos) de todas as ordens], a imaginação (simulações), a percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), os raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos complexos.  (1999, p. 118)

A primeira revolução industrial e a revolução das tecnologias da informação têm em comum o fato de gerarem descontinuidades profundas nos mais variados setores da vida em sociedade.

As recém-implantadas formas de produção com a revolução industrial rapidamente geraram novas formas de organização social que se desenrolavam em um novo espaço: o dos grandes centros urbano-industriais. Foi uma mudança visível e impactante. Por isso mesmo, segundo Nisbet (1966), o urbanismo rapidamente se tornou um dos principais temas do pensamento social do século XIX.

É, no entanto, Wirth (1938) quem melhor descreve a importância do novo espaço urbano nas modernas sociedades capitalistas:

A característica marcante do modo de vida do homem na idade moderna é a sua concentração em agregados gigantescos. (…) As influências que as cidades exercem sobre a vida social do homem são maiores do que poderia indicar a proporção da população urbana, pois a cidade não somente é, em graus sempre crescentes, a moradia e o local de trabalho do homem moderno, como é o centro iniciador e controlador da vida econômica, política e cultural que atraiu as localidades mais remotas do mundo para dentro de sua órbita (…) (Wirth, 1938, p. 90)

Essas novas formas de organização social e os novos espaços de vida, advindos com a revolução industrial, ocasionaram profundas alterações nos estilos de agir e de ser de seus contemporâneos. O cotidiano, nesses novos espaços, introduzia novos elementos na vida do urbanita: o excesso de estímulos, a divisão entre locais de trabalho e de moradia, a separação entre os domínios do público e do privado, os diferentes círculos de conhecimento, a racionalidade, a frieza, o anonimato, a reserva, o isolamento, o cálculo, a mobilidade, a pontualidade, etc. A essas novidades correspondiam novos comportamentos e novos traços psíquicos.

Ao fazer uma comparação da vida, numa metrópole centrada na antiga ordem feudal, Simmel  lançava as bases para a compreensão do que é hoje conhecido como a construção social da subjetividade. Dizia em um artigo que se tornou um clássico:

… de cada ponto da superfície da experiência (…) pode-se deixar cair um fio de prumo para o interior da profundeza do psiquismo, de tal modo que todas as exterioridades mais banais da vida estão, em última análise, ligadas às decisões concernentes ao significado e estilo de vida. (Simmel, 1902-3, Em Velho, 1987, p. 15)

O que Simmel queria dizer é que novos espaços colocam em operação novas necessidades, novas demandas, novas regras de produção, sociabilidade, sobrevivência, etc. Como resultado de tudo isso, emergem novas formas de agir e de viver, as quais dão visibilidade aos processos de transformação das formas de ser.

Durkheim (1897/1982) apontava as conseqüências psicológicas da nova ordem social. A sociedade industrial era bem mais plural, mais permissiva e menos coesa do que a comunidade feudal. Por isso mesmo, o novo todo social, se comparado ao que o havia antecedido, perdera seu poder de coerção e de contenção do desejo individual. A liberdade individual resultante podia parecer inebriante, mas também trazia conseqüências negativas. A principal delas era a perda de referenciais, a anomia. Um resultado análogo ao do surgimento dos grandes espaços urbano-industriais vem sendo gerado pelo desenvolvimento de novas tecnologias de informação. Um de seus principais analistas, Pierre Lévy (1996, 1999), adota o nome que lhe foi dado pelo romancista norte-americano William Gibson: ciberespaço. Define-o como a corporificação do caos, a essência da cibercultura. Diz:

O ciberespaço está organizado como um sistema de sistemas, mas, mesmo assim, é também um sistema do caos. Corporificação máxima da transparência técnica, (…) ele desenha e redesenha a aparência de um labirinto móvel (…) Essa universalidade destituída de significado central, esse sistema da desordem, essa transparência labiríntica, que eu chamo de ‘universal sem totalidade’, constitui a essência paradoxal da cibercultura. (1999, p. 192)

Novos comportamentos são relatados por todos aqueles que se dedicaram a estudar os impactos da Internet, em maior ou menor grau de profundidade. Além de novos comportamentos, os analistas da nova ordem digital abordam também novos problemas e conflitos psicológicos.

Turkle (1995) mostra como é possível viver nesse espaço e nessa realidade. Resumindo, o ciberespaço está para a revolução da internet aquilo que a metrópole foi para a revolução industrial. Em Life on the screen: identity in the age of the Internet (1995), a psicanalista norte-americana argumenta que está emergindo um novo modelo de organização psíquica em decorrência do uso da Rede. Esse modelo é o dos “múltiplos eus” (multiple selves), ou seja, de sujeitos que, a exemplo do que acontece nos computadores, vivem como se estivessem em várias “janelas” abertas simultaneamente.

Nicolaci-da-Costa (1998), Romão-Dias (2001) e Costa (2001) também deixam claro que o ciberespaço é o lugar (embora desprovido de materialidade física) no qual se experimentam novas formas de vida a partir das telas dos computadores que  servem de plataforma e via de acesso às pessoas.

No artigo “Caught in a world wide web: The Internet and the new man”, Nicolaci-da-Costa, tendo por base uma ampla pesquisa realizada com usuários brasileiros da Internet, primeiramente divulgada em 1998, identifica as principais características do que vê como o homem do século XXI. Um homem que, segundo ela, “pensa, age, sente, faz uso da linguagem, se relaciona consigo próprio e com os outros, percebe o mundo, etc. de forma diferente da de seus predecessores, incluindo ele próprio antes de a transformação acontecer”( Costa, 1999, p. 173).

Em 2001, em Nossa plural realidade: um estudo sobre a subjetividade na era da Internet, Romão-Dias revela, também a partir de dados brasileiros, um modelo subjetivo que rompe com aquele que vigorou ao longo do século XX. Esses dados registram a emergência de um modelo subjetivo diferente daquele que predominou no Ocidente ao longo do século XX o de uma subjetividade fragmentada, esquizofrênica e superficial. De qualquer modo, esses e outros estudos da subjetividade contemporânea apontam numa mesma direção: tal como a primeira revolução industrial deu origem a um longo processo de mudanças, que resultou na emergência do homem do século XX, a revolução da internet desencadeou um processo de transformações, ainda em curso, que está gerando o homem do século XXI.

As alterações nas formas de conceber o mundo, desencadeadas pela  revolução industrial e pela revolução da internet, tornaram necessária a criação de um novo vocabulário para dar conta de uma nova realidade. Nisbet (1966) relata uma interessante observação do historiador Eric Hobsbawn que afirmava que palavras falam mais alto do que documentos. Com isso, queria dizer que mudanças radicais ganham concretude nas palavras que são cunhadas para descrever uma nova realidade ou são modificadas com a mesma finalidade.

Nisbet (1966) assinala que o período compreendido entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX foi, do ponto de vista do pensamento social, um dos mais ricos em formação de palavras. Desde os seus primeiros momentos, a revolução industrial presenciou a criação de novas palavras para fazer referência a tudo de novo que estava sendo introduzido no cotidiano da época: conceitos, preocupações, valores, modos de produção, posição social, conflitos, etc.

É de Nisbet a seguinte citação:

Considere os seguintes termos que foram inventados durante este período ou – o que dá no mesmo – tiveram seus significados atualizados: indústria, industrial, democracia, classe, classe média, ideologia, intelectual, racionalismo, humanitarismo, atomístico, massas, comercialismo, proletariado, coletivismo, igualitário, liberal, conservador, cientista, utilitário, burocracia, capitalismo, crise.(Nisbet,1966, p. 23)

Não há dúvidas de que nessas palavras podemos reconhecer temas caros ao pensamento moderno, que eram desconhecidos ou irrelevantes na antiga ordem. Essa proliferação de neologismos não ficou, no entanto, restrita à esfera do pensamento social. Ela ocorreu também em outras esferas, inclusive na do pensamento psicológico.

Foram inúmeros os novos vocábulos introduzidos nas línguas vernáculas européias para descrever novos comportamentos, novas formas de ser, novos conflitos internos, novas formas de relacionamento, novos sentimentos, etc., gerados pelos novos modos de produção industrial e pela vida urbana. Anomia, inconsciente, mecanismos de defesa, ego, superego, neurose, psicose, borderline, público, privado são apenas alguns poucos exemplos escolhidos aleatoriamente. Os vários dicionários de psicologia e psicanálise dão seu testemunho dessa verdadeira torrente de novos vocábulos que descrevem uma vida interna até então inédita.

A atenção requerida por essa nova vida interna, no entanto, pode ser ainda melhor apreendida a partir de vocábulos cuja importância suplanta a de quaisquer outros: aqueles que nomeiam áreas de estudos independentes e novas como as ciências humanas e a própria psicologia (a respeito da emergência das ciências humanas e da psicologia bem como do apogeu do individualismo, ver, entre outros, Foucault, 1966 e Figueiredo, 1992). Ao longo do século XIX, as mudanças foram tantas e tão profundas que demandaram o surgimento de especialistas em questões humanas.

Nota-se que boa parte da dificuldade em reconhecer a mudança pela qual passou e passa a subjetividade, certamente é gerada por fatores diretamente ligados à produção de conhecimento na área das ciências humanas, pois essas mesmas mudanças são freqüentemente analisadas a partir da ótica das teorias tradicionais. Acreditamos que:

Destotalizado, o saber flutua. Donde vem um violento sentimento de desorientação. Deveremo-nos crispar nos procedimentos e esquemas que garantiam a antiga ordem do saber? Não devermos, ao contrário, dar um pulo e penetrar em cheio na nova cultura, que oferece remédios específicos para os males que a mesma gera? É certo que a interconexão em tempo real de todos com todos é a causa da desordem. Mas ela é também a condição de possibilidade das soluções práticas para os problemas de orientação e aprendizado no universo do saber em fluxo. Com efeito, essa interconexão favorece os processos de inteligência coletiva nas comunidades virtuais, graças a que o indivíduo vê-se menos desprovido frente ao caos informacional.  (Levy, 1999, p.129)

Atualmente, o advento dos computadores pessoais e, principalmente, da Internet fez com que novos significados fossem atribuídos a antigos vocábulos e enxurradas de novos termos e expressões – como, por exemplo, www, rede, ciberespaço, realidade virtual, tempo real, e-mail, listas de discussão, navegadores, mecanismos de busca, chats, spam, windows, menus, deletar, formatar, configurar e uma infinidade de outros – invadissem o linguajar contemporâneo em ritmo extremamente acelerado . A primeira revolução industrial e a revolução da internet certamente têm em comum o fato de terem dado origem a uma rara proliferação de novas palavras e expressões. Palavras e expressões certamente necessárias para registrar e dar alguma concretude às mudanças desencadeadas por esses dois momentos revolucionários, permitindo o desenvolvimento de novas formas de linguagem e a constituição de outras maneiras de representar o cotidiano.

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Virtual x Real: o ciberespaço e as transformações da vida cotidiana

Fonte: http://walmarjuca.sites.uol.com.br/

O ciberespaço e sua influência na vida contemporânea

– As transformações das cidades

A cidade é uma localidade. É onde há a organização da vida comum, é “fruto das dinâmicas que compõem a vida cotidiana” . Para se entender o surgimento da internet e as transformações que ela exerce sobre vida contemporânea, é necessário que se entenda o que é uma cidade e como ela se transformou durante o curso histórico e a evolução tecnológica.
“A cidade não é um simples arranjo espacial de ruas, prédios e monumentos, mas uma rede eco-social complexa, interligando diferentes sistemas e agrupamentos socioculturais, onde as inter-relações e as formas de impacto de um sistema sobre outro não podem ser simplesmente determinadas” . A função da cidade variou com o tempo. Com o surgimento do mercado, passou a uma realidade urbana (em oposição a uma realidade rural). Essa configuração sofreu uma grande transformação com a revolução industrial, quando surgiram as cidades com praças, ruas e jardins. As indústrias fizeram uma reviravolta nas características das sociedades, nas relações de trabalho e, portanto, na vida cotidiana.
É no final do século XIX e início do século XX, que surgem as cidades pós-industriais. O universo delas deixou de girar em torno de indústrias e começou a se abrir para o mundo globalizado. O fluxo de informação tornou-se tão intenso que deixou de ser local e passou a ser global.
As cidades também cresceram em espaço físico e a velocidade das transformações e desse crescimento foi – e ainda é – muito rápida. As formas de interação entre as pessoas tiveram que se adaptar às mudanças e caminharam alinhadas aos avanços tecnológicos. Jornal, rádio, televisão e computadores diminuíram os espaços e aumentaram a velocidade da vida urbana, principalmente.
Para Manuel Castells, nas cidades pós-industriais, o tempo não estrutura mais o espaço e sim o espaço – não físico, o espaço do fluxo de informações – estrutura o tempo. As sociedades começaram a se organizar em redes, utilizando a internet como principal ferramenta.
Segundo Martín Barbero, é nesse ponto que as cidades entraram no novo paradigma informacional, centrado no conceito de fluxos, com três fatores principais: a desespacialização, a descentralização e a desurbanização. Há uma transformação espacial ocorrendo nas sociedades modernas. O espaço está virtualizando-se e se transformando em fluxos de informação. Assim, os lugares tornaram-se equivalentes, fazendo com que haja a desvalorização dos locais tidos como centrais. O terceiro fator configura-se pelas transformações no uso das cidades pelos cidadãos. O fluxo e os deslocamentos humanos são feitos dentro do esquema de consumação do trabalho. Assim, as pessoas isolam-se em pequenos espaços privados para fugir do caos urbano.
É nesse contexto que surgem as ciber-cidades. Estas não devem ser pensadas como fatos isolados e substitutivos das cidades. São uma extensão, um complemento da vida urbana, um instrumento do fluxo de informações e da interação entre as pessoas. Diminuem as distâncias físicas, promovem o encontro de culturas diferentes e ainda criam uma nova cultura, baseada em toda essa mistura, velocidade e perda dos contatos físicos. Essa dissociação entre as relações físicas e virtuais não pode ser interpretada, no entanto, como provocadora de um esvaziamento das cidades. Na verdade, as relações do ciberespaço permitem às pessoas uma maior liberdade de movimentação, já que não têm mais de ficar presas em escritórios ou bancos, por exemplo.
O que acontece hoje em dia, é um certo esvaziamento dos espaços públicos e, conseqüentemente, uma perda de contato humano, devido à crise do atual modelo urbano. As cidades virtuais, não são substitutas das cidades reais. Seus principais objetivos devem ser potencializar as relações entre os cidadãos e ocupar os espaços e restabelecer as práticas sociais perdidas, haja vista, que as cidades hoje são globalmente conectadas, mas localmente separadas.

– A mudança dos hábitos cotidianos provocada pela rede

É dentro desse contexto que surge a figura do internauta. A rede de computadores mudou a vida das pessoas e apareceram hábitos próprios do ciberespaço como linguagens e identidades visuais. A Internet assemelha-se a uma cidade. Existem entradas e saídas. A informação circula como uma pessoa circula pelas ruas. Nela, perde-se até mesmo as identidades normalmente utilizadas no mundo físico.
O internauta constrói a sua própria identidade virtual. Torna-se uma informação e navega. Circula pelas salas de bate-papo, ou pelos inúmeros sites existentes. Atualiza seu blog – diário virtual – e espia o que outras pessoas publicam na rede. Descobre culturas diferentes de povos distantes. Mas não há mais distância. A Internet não tem barreiras geográficas.
Não existe controle. Descobrem-se novas tecnologias. Burlam-se os direitos autorais. Fazem-se compras. Também não existe desigualdade. Pelo menos não da forma que se está acostumado a observar. Existe apenas velocidade de circulação. As diferenças surgem entre os que conseguem e os que não conseguem acompanhar essa velocidade.
Na rede não existem donos. Tudo é livre. Ela não é, no entanto, apenas um mundo virtual distante do mundo físico. É uma extensão. Tornou-se os braços que o processo de globalização não tinha pra abraçar todo o planeta. E assim, criou um mundo virtual, onde não existem barreiras.
A Internet surgiu e causa grandes transformações. A falta de controle sobre a rede possibilitou sua expansão de forma muito acelerada, mas essa não foi, no entanto, a característica que tornou a Internet tão atraente. O maior atrativo da rede foi a possibilidade de interação entre o usuário e a informação. Foi aí que as grandes mudanças começaram a aparecer.
Essa interação criou um elo entre o espectador e o meio de comunicação nunca antes concebido. Uma verdadeira revolução que influenciou todas as outras mídias. Nos países mais desenvolvidos, as televisões, por exemplo, não oferecem mais apenas imagens, mas também um sistema de escolha de informação através da internet. Os jornais impressos criaram suas versões on-line.
Essa virtualização de sistemas e instituições é muito importante, mas, a Internet não é uma versão, on-line, das informações do mundo físico. A rede deve ser incorporada ao urbano como algo novo, que abre portas diferentes. Caso contrário, não passará de mais um meio de comunicação e perderá o seu potencial de integração social. A expansão do ciberespaço não se trata de uma reprodução. A educação através de aulas on-line, por exemplo, causa uma revolução muito grande nos antigos processos de ensino, oferece novas e diversas oportunidades. Abre um grande leque para a potencialização do aprendizado.
A mudança dos hábitos cotidianos provocada pela internet é evidente, mas, falta às pessoas ainda uma familiarização com os novos costumes virtuais e, claro, a disseminação do ciberespaço por todas as camadas da população. Isso ainda levará algum tempo, mas é um processo gradual e irreversível.

– Uma geração que cresce com a Internet

Passar muitas horas conectado é um costume novo, que se difundiu principalmente entre as camadas mais jovens da população. A última geração viveu o surgimento da rede, as transformações que ela causou, como a interação entre a informação e o usuário da Internet que muda para sempre os hábitos dos espectadores e da vida cotidiana. Para uma juventude que já nasceu com o ciberespaço em plena fase de expansão, os meios que oferecem a informação de forma unilateral, sem nenhum tipo de interação, torna-se desinteressante.
Mas não só isso. A contemporaneidade é dotada de um excesso de tecnologias digitais e da informatização do trabalho e da cultura. Essa transformação é mais facilmente assimilada pelas gerações mais jovens que cresceram nesse contexto de implementação da era digital. Nem mesmo a cultura que elas consomem são a mesma que se consumia nos anos passados. A pós-modernidade não vive mais de paródias do passado e sim de uma espécie de reciclagem do antigo para o novo mundo digital e virtual.
Existe, hoje, uma discrepância muito maior entre o antigo e o novo, apesar da reciclagem do passado. São as gerações mais jovens que absorvem essas novidades e são, diversas vezes, incompreendidas pelos mais idosos, provando a distância abissal que existe entre o imaginário de dois mundos bastante diferentes. As crianças aprendem antes a digitar que a escrever à mão. O mouse tornou-se um instrumento muito mais útil que o lápis.
Viver a era digital é viver grandes transformações diariamente. É aceitar e compreender uma velocidade muito acima do normal. São as novas gerações, que crescem com a internet, que tem uma maior facilidade de assimilação dos novos hábitos e da nova cultura.

– O ciber-flâneur

O flâneur é uma figura que surgiu durante o século XIX com o crescimento acelerado das grandes metrópoles, que trouxe grandes transformações na vida e nos costumes urbanos. As populações das cidades cresceram desenfreadamente e passaram a aglomerar uma gama de ‘tipos’ muito extensa. Andar pelas ruas era uma ótima oportunidade de observar as diferenças de costumes.
O flâneur tinha o costume de observar as pessoas perdidas na multidão. Os ‘tipos urbanos’ eram objeto de estudo. “Fazer botânica no asfalto” era sua principal atividade. Ele analisava e observava as diferentes espécies que transitavam nas ruas e nas galerias – espécies de shopping centers a céus aberto. Esse hábito de “flanar” não ficou, contudo, restrito aos cidadãos do século retrasado. Foi sofrendo alterações e se adaptando a cada realidade.
A flanerie ainda existe hoje. Principalmente nas grandes metrópoles onde existe uma maior mistura de culturas e raças diferentes. Hoje existe uma fartura muito maior de tipos urbanos. O flâneur trocou as galerias pelos shoppings, onde toda a cidade se encontra e onde existem as principais lojas e praças de alimentação.
Com a chegada da era digital, o flâneur adaptou-se também ao ciberespaço. Ele não faz mais botânica no asfalto e sim “tique-taque nas gravatas do hipertexto” . Expandiu seu campo observativo para os hábitos cibernéticos dos internautas. A internet é um ambiente muito propício para a flânerie. O flâneur navega nas ondas da WWW. Observa os blogs ou as conversas nas salas de bate-papo. Perde-se nas cidades digitais e no labirinto da hipermídia.
Deve-se considerar na ciber-flânerie a característica não-linear da disposição da informação na internet e seu caráter paradoxal e infinito. O flâneur tenta desatar o nó virtual onde uma informação leva a outra informação, como uma encruzilhada que leva a outra encruzilhada. Como na configuração do traçado das cidades em ciclos, a navegação na Internet também dá essa sensação e faz com que o “ciberflânauta” pense estar num mesmo lugar, embora esteja em outro diferente, dando voltas. Isso, para o ciber-flâneur, é um desafio sedutor.
A flanerie é, na verdade, a exaltação da cidade. É a constatação prática do crescimento e das suas transformações urbanas. No meio disso, a população vai sendo inconscientemente alterada. Cultura, estilos de vida, relações pessoais. Assim surgem os tipos diferentes, dentro dos mundos diferentes que compõem as cidades. O flâneur é um desses tipos, sendo sua principal característica a observação e catalogação. E hoje, na era da virtualização, sua mais nova característica é processar a informação hipertextual.

– Weblogs, Chats e Comunidades Virtuais

As comunidades são os locais onde acontecem relações íntimas e privadas de forma espontânea. Um dos critérios para a caracterização de uma comunidade é a união de pessoas sob interesses e objetivos comuns, não possuindo delimitação geográfica. Com o desenvolvimento da Internet, as possibilidades de constituição de comunidades on-line multiplicaram-se.
As novas comunidades virtuais se baseiam numa forma de interação já vista nos anos 80 com os BBSs, através dos quais acessava-se computadores isolados para conferências eletrônicas, mas não eram Internet. Com a expansão da rede, as comunidades virtuais estão ressurgindo e as duas principais formas de interação no ciberespaço são, hoje em dia, os weblogs e os chats.
Os weblogs – ou simplesmente blogs – começaram como uma espécie de diário virtual, com as experiências de navegação do autor. Mas seu conteúdo variou rapidamente e hoje existem os mais diversos blogs sobre os mais variados assuntos. Eles são, na verdade, os novos sites pessoais, com a diferença de que podem ser atualizados de forma mais fácil e constante.
Os chats são espaços virtuais abertos para conversação e diálogo entre os internautas. São os chamados bate-papos que agregam verdadeiras multidões na Internet. Cada um escolhe um nickname (apelido), inventando uma nova identidade para interagir com pessoas de diversos cantos do mundo.
Na verdade, ambos, blogs e chats, são novas expressões das ditas comunidades virtuais (não confundi-las com as cidades virtuais). Eles promovem a integração de grupos com interesses comuns no ciberespaço, caracterizando uma quebra dos padrões tradicionais de relações interpessoais devido a virtualização dessas relações, a amizade virtual é um exemplo.

– Cibercultura: do real ao virtual

É fato evidente a grande transformação da arte e cultura contemporâneas provocadas pelos novos padrões comunicacionais. A arte, na pós-modernidade, estrutura-se no pastiche, ou seja, na apropriação do passado, reinventando-o. Com a chegada da era digital, as novas tecnologias vão trazer infinitas novas possibilidades para a reapropriação de estilos e a arte vai utilizar bastante da comunicação interativa e dos recursos de colagens de informação.
Os avanços tecnológicos seguiram a linha dos avanços sociais, haja vista que ambos se baseiam em influências mútuas. Dessa forma, na era digital, o mundo sofre um processo de desmaterialização, de virtualização. É o que acontece com a cibercultura que vai agregar os valores dessa civilização virtual, principalmente do fluxo de informações.
“Toda arte é um processo de virtualização, já que ela procura trazer ao sensível, problematizações do real e alargar os limites do possível. No contexto da arte eletrônica contemporânea, esse processo atinge uma radicalização sem precedentes, pois a arte continua a ser virtualização de uma virtualização, só que agora sob uma forma puramente digital, utilizando-se de uma tecnologia também virtualizante (digital)” . Esse é um fato muito interessante e primordial da ciber-arte, pois, com a digitalização do mundo, as relações entre objeto e imagem são radicalmente transformadas.
A grande mudança está no fato de que as imagens digitais não necessitam mais do objeto primordial. Elas são criadas a partir dos cálculos matemáticos que compõem a linguagem da informática. A relação entre o artista e o objeto torna-se abstrata e a arte simbólica e imaginária. Isso constitui, no entanto, o paradoxo de virtualizar o mundo, apesar de depender simbolicamente do meio físico.
Outra característica da ciber-arte está no uso da interatividade que advém da tensão entre o interagente e o seu reflexo que a obra de arte lhe devolve como experiência. São exemplos importantes da ciber-arte as esculturas virtuais, a arte halográfica e informática (com imagens, home pages, arte ASCII) e a vídeo-arte. A estética tecno toma conta na música com uma fusão de futurismo, minimalismo e ritmos com impulsos tribais; e no design com o uso expressivo de imagens digitais e 3D, paletas multicoloridas e vibrantes, efeitos de iluminação que lembram as festas raves e temáticas psicodélicas que remetem às capas de discos de rock progressivo.
A ciber-arte é o imaginário da cibercultura, utilizando-se da hibridização do ciberespaço e da realidade, além da interatividade dos novos meios de comunicação. O ciber-artista faz a colagem de informações (samplings) e a faz circular. Ele deixa de ser o pop-star da cultura de massa e se torna apenas um editor. O ciberespaço é o local propício para a disseminação da arte eletrônica por ser um espaço virtual que permite uma conexão e interação em tempo real.
A virtualização do mundo provocou as transformações dos hábitos cotidianos e é uma característica-base da vida contemporânea. Não se pode mais pensar o mundo sem a Internet e suas ferramentas. A cibercultura é a cultura transformada e adaptada a essas mudanças do mundo real. Mas claro, as raízes culturais não podem ser esquecidas, elas devem ser reapropriadas e reinseridas na nova realidade digital.

Mudanças caóticas – a Internet não chega para todos: Os contrastes do mundo virtual e do mundo físico

É difícil imaginar a assimilação do ciberespaço pela população, principalmente num mundo excludente como o atual. Como se pensar em rede mundial de computadores num país repleto de favelas e com grande parte da população analfabeta? A consolidação da Internet ainda é um sonho distante, principalmente em países do continente africano cheios de guerras civis e altas taxas de mortalidade infantil.
Mesmo na internet existem subdivisões baseadas no acesso e uso de tecnologias. Esse, no entanto, não é o principal problema. O principal impedimento da democracia eletrônica está no grande número de pessoas desconectadas e incapacitadas para assimilar o ciberespaço e suas transformações.
Pensar numa rede mundial de computadores seria um ato falho, porque essa rede não tem condições, ainda, de se estender por todo o globo. As disparidades das relações da população com a tecnologia, entre os países ricos e os países pobres são muito grandes. O ciberespaço vive dessas relações e do desenvolvimento tecnológico, mas tem seu processo expansivo desacelerado devido a essas disparidades.

– A Internet para todos?

As previsões sobre o futuro da internet são feitas, em sua maioria, num tom profético que anuncia o fim dos meios tradicionais de comunicação, como o jornal e a televisão. Mas o grande problema do porvir do ciberespaço está não na sua capacidade de expansão, já provada anteriormente, e sim na diminuição das diferenças sociais e econômicas do mundo físico.
Pensando em longo prazo, caso essas transformações ocorram, pode-se imaginar, a partir do rumo do desenvolvimento da Internet, que ela irá englobar e transformar um número cada vez maior de meios de comunicação. Outra possibilidade seria uma desburocratização dos poderes públicos, eliminando intermediários, e uma maior transparência nas administrações. A rede também tem potencial para abrir os governos para uma participação mais ativa dos cidadãos no controle e na distribuição do poder.
Para que isso aconteça, é necessário não somente a presença de equipamentos eletrônicos com fácil acesso à população, mas também uma reformulação das mentalidades políticas que incentivem uma maior assimilação da virtualização do mundo pelo povo. “Enfatizo (…) que esse uso do ciberespaço não deriva automaticamente da presença de equipamentos materiais, mas que exige igualmente uma profunda reforma das mentalidades dos modos de organização e dos hábitos políticos” .
Imaginar um possível acesso de toda a população mundial à Internet é difícil, mas seria a forma ideal para o desenvolvimento da rede e não da forma desigual como ocorre hoje. O ciberespaço causa grandes mudanças na vida cotidiana, mas depende das mudanças do mundo real para o desenvolvimento do processo de virtualização. As mudanças causadas pela rede num mundo desigual, só aumentam as diferenças das populações. É necessário, para um completo desenvolvimento do mundo digital, que se acabem com as diferenças sociais. É uma pena, no entanto, que esse sonho do virtual e do real pareça ainda tão distante.

BIBLIOGRAFIA

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15 de março de 2002.

________________. Setting, communicating and enforcing the rules. www.designforcommunity.com
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BUCINI, Marcos. A estética tecno na tipografia de vinhetas da MTV.
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FILHO, Demócrito Reinaldo. As Comunidades Virtuais.
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LEMOS, André. Arte Eletrônica e Cibercultura. http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/
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LEÃO, Lúcia. O labirinto da hipermídia – arquitetura e navegação no ciberespaço.
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BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. O Flâneur. São Paulo: Brasiliense, 1985. [Obras escolhidas I].

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THEOPHILO, Jan. Alteregos ambulantes na grande rede. www.no.com.br
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LEVY, Pierre. O Ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica.

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AULA 4 – Noturno – Produto – 22.03.2010

A segunda parte do livro “O mundo codificado”, de Vilém Flusser, intitulada códigos disserta sobre o modo que o homem vem se comunicando. Esta comunicação ocorre de uma forma não natural, onde os símbolos são organizados em códigos, e após a aprendizagem desse código tendemos a esquecer a artificialidade desse código.

Os meios, como televisão, radio, teatro, entre outros, são responsáveis por transmitir mensagens, mas cada mídia comunicava de maneira distinta. Com o passar do tempo, elas passaram a se misturar, se convergir, de tal forma que hoje é possível ler um jornal no computador. Essa convergência de mídias faz com que seja necessário um novo modo de comunicação, que é esse período que estamos vivendo, onde a mídia digital se mistura com outros tipos de mídia para nos aproximarmos mais dessa nova forma de comunicação.
Um ponto questionado por Flusser é a forma como pegamos um universo e o expressamos em linha, hierarquizando e artificializando, nos distanciando cada vez mais do mundo.

Por isso, não há como entender design sem falar em comunicação, pois uma cor, uma forma é responsável por comunicar.

Desenhar também é uma forma de expressar a comunicação, mas somos seres com uma capacidade pluridimensional, ao passar essas idéias para o papel, dentro da linha as ideias passam a ser bidimensionalizadas, achatadas.

Então, como fazemos para nos comunicar onde tudo é vazio? ( “A Casa Vazia”).

Nós nos acostumamos tanto ao artificial que ele nos parece natural, artificializamos tudo sem perceber, nos prendemos aos símbolos e nos esquecemos do significado das coisas. Produzimos coisas pensando em sua finalidade e nos esquecemos de suas intenções. Quando o designer precisa redesenhar algo, isso não significa que ele tenha que mudar formas, materiais, ou cores do objeto, mas sim analisar e questionar as intenções desse objeto.

No inicio da comunicação a imagem era utilizada para explicar coisas, como o desenho de um cavalo, que comunicava para alguém que nunca tinha visto um cavalo como era a forma de um cavalo. Mas pelo fato do ilustrador expressar sua visão do cavalo, há aí um abismo entre o desenho e o cavalo real. Para tentar explicar de uma forma melhor, o homem criou a escrita.

É preciso que haja reconhecimento de outras formas de comunicar. No mundo codificado, em que vivemos, as coisas são códigos formados por 0 e 1 (Matrix), onde a combinação forma uma imagem. Para Flusser, o pensamento numérico evadiu-se do código alfabético, livrando-se da obrigação da linearidade, passando de números às informações digitais.

Então, como retornar ao natural sem abandonar o real?

É preciso mudar o foco, enxergar o design de outra maneira, esquecer um pouco da preocupação com a aparência das coisas e dar ênfase nas questões, nos processos. É preciso parar de projetar coisas que são responsáveis pela destruição da vida no planeta.

O universo de atuação do designer sofre uma expansão muito rica e muito além de projetos de novas formas e novos objetos, bem como realizar novos projetos que tenham a sensação como um vetor incorporado na fase de criação.

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Qual a sua motivação, designer?

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” – Eduardo Galeano (Bio Wikipedia)

A humanidade vive uma época de transição, e o design caminha em direção ao seu período de maioridade, é natural que as metodologias que devem ser usadas hoje sejam diferentes das metodologias utilizadas nas últimas décadas. Sempre houve mediadores para a comunicação, mas o contemporâneo os aboliu, a informação hoje é on-line, é em tempo real.

O tempo da contemporaniedade é imediato.

Na aula que discutimos o capítulo final do livro “O Mundo Codificado”, conversamos principalmente sobre o papel do designer na sociedade e como ele é reflexo do modo de vida que levamos.

No Z-Day de 2010, que aconteceu no dia 13 de março, o palestrante Peter Joseph, disse:

No nosso sistema econômico atual, tiramos da natureza o máximo de recursos que conseguirmos, juntamos tudo em um produto qualquer e tentamos manipular uns aos outros para que todos comprem esse produto, buscando apenas o lucro pessoal. A base da ideologia de mercado livre é usar e trocar o maior número possível de recursos, o mais rápido possível, para gerarmos o máximo de lucro possível, o mais rápido possível. Para que em seguida se transforme na aquisição de mais recursos, de novo, e de novo, e assim por diante. É difícil pensar numa maneira mais destrutiva de se organizar uma sociedade.

No Megafoniquinhas do começo do ano foi perguntado para os bixos de 2010, algo assim: Como? Quando? e Porque?

As perguntas se referiam à escolha do curso de Design, quais os motivos que os fizeram passar por um processo seletivo para ingressar na faculdade. E é isso que nos perguntamos aqui também: Qual o seu motivo designer? O que realmente o motivou quando escolheu o curso de design, e o que continua motivando no estudo do design?

Você se vê como uma pessoa que se empenha em alcançar o melhor de si, se vê no futuro como um ídolo produtor de ícones?

Você já se questionou como designer?

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Linguagens Contemporâneas:

Design e Mobilidade

A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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