Tempo, espaço e códigos do design

Diurno, Aula 04 – 22.03.2010

Para Flusser a base de toda cultura é a tentativa de enganar a naturaza por meio da tecnologia.

Rafael Cardoso

O vídeo acima se chama “elevated”, criado pelos grupos RGBA e TBC, indicado neste post do blog 100nexos.

O filme acima foi gerado por um pequeno arquivo de 4KB, contendo informações procedurais e instruções matemáticas que o computador calcula. Com apenas poucas linhas de código foram geradas as montanhas, a neve, a água, o sol e até a música que acompanha o vídeo. A programação procedural vem sendo muito utilizada atualmente por ser fácil de programar e gerar instruções não-lineares, dinâmicas e auto-generativas.

As mídias líquidas

E continuando com a conversa sobre o “Mundo Codificado”, entramos no capítulo Códigos, que traz a tona questões sobre a comunicação, o modo como representamos a realidade, o estado de organização da sociedade atual, o que ela produz e como ela pensa.

A conversa da sala se inicia com citações do autor, em que ele afirma que hoje em dia existe uma degeneração dos signos, o modo como eles são transmitidos mudou com as novas mídias, e isso muda todo o processo de comunicação atualmente. Vejamos este esquema de como McLuhan via o método de transmissao de informação:

Esquema Emissor-Receptor McLuhan

Esse modelo foi extremamente importante e inovador no final da década de 60 quando foi lançado. Tendo o meio como objeto de estudo, McLuhan também faz outra afirmação inovadora, diz que as ferramentas são uma extensão do corpo e dos sentidos do homem. Sendo essas ferramentas indispensáveis para a transmissão da informação, conclui-se que um homem sem ferramentas, isto é, sem acesso aos meios de comunicação, é uma espécie de “aleijado social”, num nível diferente de auquisição e retransmissão de conteúdo.

Flusser se baseia nesses conceitos e diz que na contemporaniedade o homem naturalmente transcendeu as ferramentas. Isso porque na busca por extender-se além das mídias ele as convergeu numa linguagem: a digital.

A linguagem digital, como dito nos posts anteriores, é “descoisificada”, ela ultrapassa os limites do plano físico, e pode ser simulada de diversas maneiras, independente da mídia, ou o meio que ela usa para ser passada. Esse novo pensamento muda a forma de comunicar, da mesma forma que os estudos de McLuhan influenciaram a sua época.

O digital está desterritorializando os meios, pois ele faz com que todos falem uma mesma língua, e essa língua não tem um lugar definido, ela é flúida, líquida, maleável, e ela está em todo lugar.

A sensação difere da ação pelo seu tempo de duração

Seguindo com a conversa sobre a desterritorialização e consequentemente a liberdade e a gama de possibilidades que esse fenômeno gera, discutimos sobre como a sociedade parece ser contrária a isso e como ela é formatada linearmente. Quando academicamente se diz “sociedade”, geralmente se fala dos outros, de como a “massa” é formatada, de como ela segue os padrões impostos cegamente, e nós, os grandes universitários e intelectuias estamos distantes dessa realidade opressora. E obsevando atentamente, parece não ser assim.

Sua vez!

Fato: todos somos formatados do instante em que nascemos, e assim seguimos conforme crescemos. O “mundo” formata o pensamento infantil na linha, dentro da linha, ele arranca a natureza presente na criança e artificializa seu pensamento. Ocorre uma inversão, em que o pensamento artificial se torna natural em nome de uma produtividade prática indefinida e no fundo ninguém sabe exatamente o porque de agir assim, “eles” apenas repetem o que lhe foi imposto. Parece meio confuso, e talvez exagerado, mas isso afeta seriamente o modo como agimos pelo resto da vida, pois o ensino na sua totalidade é artificial.

E na verdade, quem perde muito com isso somos nós, designers e outros profissionais de áreas ligadas ao sentimento, à expressão, comunicação. Nos tornamos apenas projetisitas de respostas, devido a essa artificialidade. Apenas resolvemos problemas (geralmente criando outros, mas essa é uma outra história), e agimos sem refletir. Sem reflexão e questionamento, o mundo para.  O designer deve projetar dúvidas e sensações. O desenho é outro, é diferente, o designer precisa desartificializar sua vida. A linearização das coisas, acaba por matar a alma delas.

O retorno da sensação

É disso que se tratam os tempos contemporâneos, e os desejos de quem vive nele: se reencontrar com a naturalidade da comunicação, das sensações e da vida em sua totalidade. Comunicar-se de uma forma que cause uma impressão, algo que nos lembre de quando não éramos formatados. E uma das tarefa do designer é esta: desertificializar o mundo. E o digital pode te ajudar.

Ao entrarmos em como o digital pode ajudar na desartificialização em geral, devemos pensar no aspecto ambíguo e contraditório em que entramos em contato. Abaixo vemos dois dos possíveis usos do digital:

Desenho

O digital é ambíguo e depende de uma característica essencial do designer: Postura. As decisões que o designer toma, não apenas na hora de “produzir design”, mas para sua vida toda.

Imagens e os novos meios

Os novos meios e a sua digitalização vem permitindo cada vez mais que não só designers e artistas produzam arte e conteúdo. Flusser já previa este fenômeno da popularização da manipulação de imagens, sons e filmes em seus estudos da década de 60 e 70. Hoje já não cortamos e colamos fita magnética, no mundo das não-coisas digitais, operamos no código delas. Depedendo da organização que você der para os códigos, do jeito que você brincar com eles, podem nascemr lugares, experiências, sons, sensações, como no vídeo no começo do post, apenas manipulando zeros e uns.

Youtube

E num mundo codificado como esse, o que pode ser chamado de um trabalho criativo? Ao trabalhar com códigos do digital, estamos trabalhando com imagens e sons que ainda não existem, a criatividade ocorre aqui num plano diferente do tradicional. Como brincar com as nanolinguagem dos bits, Dorival nos pergunta, como passear pelos caminhos da contemporaniedade, que se apresenta como um labirinto de possibilidades, em que cada esquina reserva milhões de outras possibilidades. Chega ser confuso e talvez exaustiva o turbilhão de informações em que vivemos, um mundo que é atualizado a cada minuto e quem tenta acompanhar a tudo se frustra, e é aí que Flusser entra e indica os caminhos do design contemporâneo e futuro.

Ele nos leva a pensar em como projetar naturalmente e evitar que a artificialidade de quem experimenta afete o propósito do projeto, o designer pensa nessas questões e as antecipa. O que importa como “produto” é a sensação que ele deixará nas pessoas que o compõem e que participama dele. A preocupação das artes, arquitetura, design e estudos, digamos assim, “plásticos”, sempre foi a FORMA, e hoje temos um objeto de trabalho diferente, como já foi dito, o TEMPO deve ser a plataforma de trabalho dos projetos direcionados às pessoas.Trocar a forma pelo tempo, brincar com ele, misturar suas camadas e seus planos. O tempo possibilita essa transição entre os planos de criação, as camadas do pensamento e do próprio sentimentos.

Então nos perguntamos: isso tudo para quê? Para as pessoas, claro. É por elas e por nós que nos preocupamos com esssas questões, organizar os códigos e construções da sociedade para melhorar a vida. E sem depender do meio em que isso é feito, os suportes digitais eliminaram a necessidades de suportes, eles fluidificaram os objetos e as relações que mantemos com eles. É o início de um mundo mais ”open”.

Links Relacionados:

McLuhan: Aqui e Aqui
Dave Bolinger
LiveBrush

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Linguagens Contemporâneas:

Design e Mobilidade

A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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