As representações sociais e a subjetividade contemporânea

Fonte: Psicopedagogia.com.br

O conceito de representação social designa um conhecimento específico, o saber de sentido comum , um saber não-científico. De uma forma ampla, pode-se dizer que se relaciona a uma forma de pensamento social.

Os seres humanos vivem imersos em um mundo social complexo, mediado pela linguagem. Entre as muitas formas de comunicação possíveis, a linguagem, em especial, possibilita a transmissão, o intercâmbio, a modificação e a ampliação das representações. Cada membro de um grupo constitui representações, recebe-as e as transmite na comunicação. Assim, as representações individuais podem se converter em representações coletivas. Por sua vez, as representações coletivas podem se converter em individuais.

Ao internalizarmos as representações que intercambiamos com os outros, agregamos e omitimos elementos modificando-as e, uma vez apreendidas, essas representações vão formar novas imagens. Para Baeza (2003, p.08): “As representações sociais constituem modalidades de pensamento prático orientado para a comunicação, a compreensão e o domínio do entorno social, seja material ou ideal”.

Concordamos com Moscovici (1979) quando afirma que:

A representação social é uma modalidade particular do conhecimento, cuja função é a elaboração dos comportamentos e a comunicação entre os indivíduos. A representação é um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens fazem inteligível a realidade física e social, integram-se em um grupo ou em uma relação cotidiana de intercâmbios, liberam os poderes de sua imaginação. (Moscovici, 1979, p. 17-18)

Dito em outras palavras, é o conhecimento de sentido comum que se origina no intercâmbio de comunicações do grupo social.Por outro lado, o campo de representação designa ao conhecimento de senso comum uma forma de pensamento social.

Partindo de uma perspectiva esquemática, as representações sociais surgem quando os indivíduos debatem temas de interesse mútuo ou quando existe o eco dos acontecimentos selecionados como significativos ou dignos de interesse por quem tem o controle dos meios de comunicação. Além disso, as representações sociais têm uma dupla função: “fazer com que o estranho pareça familiar e o invisível perceptível”, já que o insólito ou o desconhecido são ameaçadores, quando não se tem uma categoria para classificá-los.

Moscovici escreve uma definição sumária das representações sociais:

Sistemas cognitivos com uma lógica e uma linguagem próprias. Não representam simplesmente opiniões a respeito de’, `imagens de’, ou `atitudes para’ mas teorias ou ramos do conhecimento’ com status próprio para o descobrimento e a organização da realidade. Sistemas de valores, idéias e práticas com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que permita aos indivíduos orientar-se em seu mundo material e social e dominá-lo; segundo, possibilitar a comunicação entre os membros de uma comunidade lhes proporcionando um código para o intercâmbio social e um código para nomear e classificar sem ambigüidades os diversos aspectos de seu mundo e de sua história individual e grupal. (p. 45)

As representações sociais aparecem na sociedade pós-moderna no momento em que o conhecimento está continuamente dinamizado pelas informações que circulam amplamente e que exigem ser consideradas como guias para a vida cotidiana.

As representações sociais não têm a possibilidade de assentar-se e solidificar-se para converter-se em tradições, já que os meios de informação de massas exigem a mudança contínua de conhecimentos e a existência de um receptor típico de nosso tempo, ao que Moscovici chama sábio aficionado ou amateur. Este é o aficionado consumidor de idéias científicas já formuladas e que converte em sentido comum quanta informação recebe, como forma dessacralizada e vital de conhecimento científico. Além de distinguir-se da ciência, o conhecimento de sentido comum tem rasgos que o diferenciam da ideologia.

Aponta Moscovici:

A ciência se preocupa com controlar a natureza ou por dizer a verdade sobre ela; (a ideologia) esforça-se por proporcionar um sistema geral de objetivos ou por justificar os atos de um grupo humano. Por conta disso reclamam condutas e comunicações adequadas ( p.52) .

Significa, então, que a representação social contribui exclusivamente ao processo de formação de condutas e à orientação das comunicações. Resolver problemas, dar forma às interações sociais, proporcionar um padrão de conduta são motivos para constituir uma representação e separar-se do que é a ciência e o que é a ideologia.

Por outro lado, a ciência se liga ideologicamente com o poder de “quem sabe”, e o sentido comum é desprezado porque significa a vulgarização e a queda desse saber. Tal menosprezo se explica pela desigual valoração dos conhecimentos:de um lado, a ciência e do outro, o sentido comum. Com efeito, esquece-se que assim como o conhecimento científico é incorporado à linguagem da vida cotidiana, constituindo uma autêntica rede de opiniões válida para a convivência social, o conhecimento popular de sentido comum contribui, em grande escala, para sustentar valores que a ciência requer para ser ideada.

Indagando sobre a dupla direção de fluxo presente neste processo, Moscovici e Hewstone atribuem ao sentido comum uma espécie de conhecimento de menor hierarquia científica (embora não por isso menos complexo), e que aparece de duas formas:

Primeiro, como corpo de conhecimentos produzido de forma espontânea pelos membros de um grupo, apoiado na tradição e o consenso. Sendo um conhecimento de primeira mão, é um terreno onde nasce e prospera a ciência. Segundo, como soma de imagens mentais e de laços de origem científica, consumidos e transformados para servir na vida cotidiana. (Moscovici; Hewstone, 1984, p. 685).

Quando o sentido comum foi estruturado de forma tal que o rigor possa fazê-lo ciência, produzem-se desequilíbrios e posições contraditórias que se traduzem na linguagem. O mesmo vocabulário tende a assimilar-se ao novo implicando substituição e desmantelamento simultâneos das cadeias lingüísticas existentes. Inversamente, a formação de uma representação social e sua generalização entranha a ingerência da própria língua na teoria, à maneira de um jargão científico que se converte em uma versão socialmente autorizada de um modo de acesso ao saber e aos fenômenos que são inacessíveis à coletividade.

Mediante o que Moscovici e Hewstone  denominam positividade, quer dizer, a repetição afirmativa de uma informação para minimizar seus aspectos negativos e suas qualidades, facilita-se que circulem dentro do grupo as noções que a representação social estrutura como explicação do cotidiano.

Quando Moscovici(1979) complementa sua teoria das representações sociais com seus trabalhos a respeito das minorias ativas e a influência social, dá dimensão ao descobrimento da ideologia que subjaz e domina o sentido comum como uma forma de pensamento social que pode resultar valiosa para a análise, descrição e desmantelamento da ideologia como discurso de dominação.

A subjetividade contemporânea está sendo transformada por desenvolvimentos tecnológicos em virtude da descontinuidade com a ordem das coisas precedentes. Concordamos com Levy (1999):

Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no começo de seu percurso profissional serão obsoletas no fim de sua carreira. A segunda constatação, fortemente ligada à primeira, concerne à nova natureza do trabalho, na qual a parte de transação de conhecimentos não pára de crescer. Trabalhar equivale cada vez mais a aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos. Terceira constatação: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que ampliam, exteriorizam e alteram muitas funções cognitivas humanas: a memória [bancos de dados, hipertextos, fichários digitais (numéricos) de todas as ordens], a imaginação (simulações), a percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), os raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos complexos.  (1999, p. 118)

A primeira revolução industrial e a revolução das tecnologias da informação têm em comum o fato de gerarem descontinuidades profundas nos mais variados setores da vida em sociedade.

As recém-implantadas formas de produção com a revolução industrial rapidamente geraram novas formas de organização social que se desenrolavam em um novo espaço: o dos grandes centros urbano-industriais. Foi uma mudança visível e impactante. Por isso mesmo, segundo Nisbet (1966), o urbanismo rapidamente se tornou um dos principais temas do pensamento social do século XIX.

É, no entanto, Wirth (1938) quem melhor descreve a importância do novo espaço urbano nas modernas sociedades capitalistas:

A característica marcante do modo de vida do homem na idade moderna é a sua concentração em agregados gigantescos. (…) As influências que as cidades exercem sobre a vida social do homem são maiores do que poderia indicar a proporção da população urbana, pois a cidade não somente é, em graus sempre crescentes, a moradia e o local de trabalho do homem moderno, como é o centro iniciador e controlador da vida econômica, política e cultural que atraiu as localidades mais remotas do mundo para dentro de sua órbita (…) (Wirth, 1938, p. 90)

Essas novas formas de organização social e os novos espaços de vida, advindos com a revolução industrial, ocasionaram profundas alterações nos estilos de agir e de ser de seus contemporâneos. O cotidiano, nesses novos espaços, introduzia novos elementos na vida do urbanita: o excesso de estímulos, a divisão entre locais de trabalho e de moradia, a separação entre os domínios do público e do privado, os diferentes círculos de conhecimento, a racionalidade, a frieza, o anonimato, a reserva, o isolamento, o cálculo, a mobilidade, a pontualidade, etc. A essas novidades correspondiam novos comportamentos e novos traços psíquicos.

Ao fazer uma comparação da vida, numa metrópole centrada na antiga ordem feudal, Simmel  lançava as bases para a compreensão do que é hoje conhecido como a construção social da subjetividade. Dizia em um artigo que se tornou um clássico:

… de cada ponto da superfície da experiência (…) pode-se deixar cair um fio de prumo para o interior da profundeza do psiquismo, de tal modo que todas as exterioridades mais banais da vida estão, em última análise, ligadas às decisões concernentes ao significado e estilo de vida. (Simmel, 1902-3, Em Velho, 1987, p. 15)

O que Simmel queria dizer é que novos espaços colocam em operação novas necessidades, novas demandas, novas regras de produção, sociabilidade, sobrevivência, etc. Como resultado de tudo isso, emergem novas formas de agir e de viver, as quais dão visibilidade aos processos de transformação das formas de ser.

Durkheim (1897/1982) apontava as conseqüências psicológicas da nova ordem social. A sociedade industrial era bem mais plural, mais permissiva e menos coesa do que a comunidade feudal. Por isso mesmo, o novo todo social, se comparado ao que o havia antecedido, perdera seu poder de coerção e de contenção do desejo individual. A liberdade individual resultante podia parecer inebriante, mas também trazia conseqüências negativas. A principal delas era a perda de referenciais, a anomia. Um resultado análogo ao do surgimento dos grandes espaços urbano-industriais vem sendo gerado pelo desenvolvimento de novas tecnologias de informação. Um de seus principais analistas, Pierre Lévy (1996, 1999), adota o nome que lhe foi dado pelo romancista norte-americano William Gibson: ciberespaço. Define-o como a corporificação do caos, a essência da cibercultura. Diz:

O ciberespaço está organizado como um sistema de sistemas, mas, mesmo assim, é também um sistema do caos. Corporificação máxima da transparência técnica, (…) ele desenha e redesenha a aparência de um labirinto móvel (…) Essa universalidade destituída de significado central, esse sistema da desordem, essa transparência labiríntica, que eu chamo de ‘universal sem totalidade’, constitui a essência paradoxal da cibercultura. (1999, p. 192)

Novos comportamentos são relatados por todos aqueles que se dedicaram a estudar os impactos da Internet, em maior ou menor grau de profundidade. Além de novos comportamentos, os analistas da nova ordem digital abordam também novos problemas e conflitos psicológicos.

Turkle (1995) mostra como é possível viver nesse espaço e nessa realidade. Resumindo, o ciberespaço está para a revolução da internet aquilo que a metrópole foi para a revolução industrial. Em Life on the screen: identity in the age of the Internet (1995), a psicanalista norte-americana argumenta que está emergindo um novo modelo de organização psíquica em decorrência do uso da Rede. Esse modelo é o dos “múltiplos eus” (multiple selves), ou seja, de sujeitos que, a exemplo do que acontece nos computadores, vivem como se estivessem em várias “janelas” abertas simultaneamente.

Nicolaci-da-Costa (1998), Romão-Dias (2001) e Costa (2001) também deixam claro que o ciberespaço é o lugar (embora desprovido de materialidade física) no qual se experimentam novas formas de vida a partir das telas dos computadores que  servem de plataforma e via de acesso às pessoas.

No artigo “Caught in a world wide web: The Internet and the new man”, Nicolaci-da-Costa, tendo por base uma ampla pesquisa realizada com usuários brasileiros da Internet, primeiramente divulgada em 1998, identifica as principais características do que vê como o homem do século XXI. Um homem que, segundo ela, “pensa, age, sente, faz uso da linguagem, se relaciona consigo próprio e com os outros, percebe o mundo, etc. de forma diferente da de seus predecessores, incluindo ele próprio antes de a transformação acontecer”( Costa, 1999, p. 173).

Em 2001, em Nossa plural realidade: um estudo sobre a subjetividade na era da Internet, Romão-Dias revela, também a partir de dados brasileiros, um modelo subjetivo que rompe com aquele que vigorou ao longo do século XX. Esses dados registram a emergência de um modelo subjetivo diferente daquele que predominou no Ocidente ao longo do século XX o de uma subjetividade fragmentada, esquizofrênica e superficial. De qualquer modo, esses e outros estudos da subjetividade contemporânea apontam numa mesma direção: tal como a primeira revolução industrial deu origem a um longo processo de mudanças, que resultou na emergência do homem do século XX, a revolução da internet desencadeou um processo de transformações, ainda em curso, que está gerando o homem do século XXI.

As alterações nas formas de conceber o mundo, desencadeadas pela  revolução industrial e pela revolução da internet, tornaram necessária a criação de um novo vocabulário para dar conta de uma nova realidade. Nisbet (1966) relata uma interessante observação do historiador Eric Hobsbawn que afirmava que palavras falam mais alto do que documentos. Com isso, queria dizer que mudanças radicais ganham concretude nas palavras que são cunhadas para descrever uma nova realidade ou são modificadas com a mesma finalidade.

Nisbet (1966) assinala que o período compreendido entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX foi, do ponto de vista do pensamento social, um dos mais ricos em formação de palavras. Desde os seus primeiros momentos, a revolução industrial presenciou a criação de novas palavras para fazer referência a tudo de novo que estava sendo introduzido no cotidiano da época: conceitos, preocupações, valores, modos de produção, posição social, conflitos, etc.

É de Nisbet a seguinte citação:

Considere os seguintes termos que foram inventados durante este período ou – o que dá no mesmo – tiveram seus significados atualizados: indústria, industrial, democracia, classe, classe média, ideologia, intelectual, racionalismo, humanitarismo, atomístico, massas, comercialismo, proletariado, coletivismo, igualitário, liberal, conservador, cientista, utilitário, burocracia, capitalismo, crise.(Nisbet,1966, p. 23)

Não há dúvidas de que nessas palavras podemos reconhecer temas caros ao pensamento moderno, que eram desconhecidos ou irrelevantes na antiga ordem. Essa proliferação de neologismos não ficou, no entanto, restrita à esfera do pensamento social. Ela ocorreu também em outras esferas, inclusive na do pensamento psicológico.

Foram inúmeros os novos vocábulos introduzidos nas línguas vernáculas européias para descrever novos comportamentos, novas formas de ser, novos conflitos internos, novas formas de relacionamento, novos sentimentos, etc., gerados pelos novos modos de produção industrial e pela vida urbana. Anomia, inconsciente, mecanismos de defesa, ego, superego, neurose, psicose, borderline, público, privado são apenas alguns poucos exemplos escolhidos aleatoriamente. Os vários dicionários de psicologia e psicanálise dão seu testemunho dessa verdadeira torrente de novos vocábulos que descrevem uma vida interna até então inédita.

A atenção requerida por essa nova vida interna, no entanto, pode ser ainda melhor apreendida a partir de vocábulos cuja importância suplanta a de quaisquer outros: aqueles que nomeiam áreas de estudos independentes e novas como as ciências humanas e a própria psicologia (a respeito da emergência das ciências humanas e da psicologia bem como do apogeu do individualismo, ver, entre outros, Foucault, 1966 e Figueiredo, 1992). Ao longo do século XIX, as mudanças foram tantas e tão profundas que demandaram o surgimento de especialistas em questões humanas.

Nota-se que boa parte da dificuldade em reconhecer a mudança pela qual passou e passa a subjetividade, certamente é gerada por fatores diretamente ligados à produção de conhecimento na área das ciências humanas, pois essas mesmas mudanças são freqüentemente analisadas a partir da ótica das teorias tradicionais. Acreditamos que:

Destotalizado, o saber flutua. Donde vem um violento sentimento de desorientação. Deveremo-nos crispar nos procedimentos e esquemas que garantiam a antiga ordem do saber? Não devermos, ao contrário, dar um pulo e penetrar em cheio na nova cultura, que oferece remédios específicos para os males que a mesma gera? É certo que a interconexão em tempo real de todos com todos é a causa da desordem. Mas ela é também a condição de possibilidade das soluções práticas para os problemas de orientação e aprendizado no universo do saber em fluxo. Com efeito, essa interconexão favorece os processos de inteligência coletiva nas comunidades virtuais, graças a que o indivíduo vê-se menos desprovido frente ao caos informacional.  (Levy, 1999, p.129)

Atualmente, o advento dos computadores pessoais e, principalmente, da Internet fez com que novos significados fossem atribuídos a antigos vocábulos e enxurradas de novos termos e expressões – como, por exemplo, www, rede, ciberespaço, realidade virtual, tempo real, e-mail, listas de discussão, navegadores, mecanismos de busca, chats, spam, windows, menus, deletar, formatar, configurar e uma infinidade de outros – invadissem o linguajar contemporâneo em ritmo extremamente acelerado . A primeira revolução industrial e a revolução da internet certamente têm em comum o fato de terem dado origem a uma rara proliferação de novas palavras e expressões. Palavras e expressões certamente necessárias para registrar e dar alguma concretude às mudanças desencadeadas por esses dois momentos revolucionários, permitindo o desenvolvimento de novas formas de linguagem e a constituição de outras maneiras de representar o cotidiano.

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A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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