Códigos

Na segunda parte do livro “O Mundo Codificado”, o autor Vilém Flusser fala sobre os códigos através dos quais o humano se comunica, transformando o que é real em símbolos que são interpretados e relacionados em nossa mente.

Para exemplificar, falando sobre como os filmes de ficção científica muitas vezes prevêm o que está por acontecer, Matrix é citado e vemos que, como no filme, nosso mundo já está codificado em zeros e uns que são interpretados por nós e nos incluem em um mundo cada vez mais distante do real.

Tal fenômeno vai muito além do advento da internet e das mídias digitais: a própria língua e a comunicação escrita já são codificações do mundo real. Cada palavra é ligada a uma coisa, e as pessoas conhecem essas palavras e suas mentes conectam-as aos conceitos de cada uma dessas coisas, mesmo sem realmente conhecê-las. Exemplificando com um fato recente, foi muito fácil fazer qualquer brasileiro entender que um terremoto muito forte ocorreu no japão há algumas semanas, mas a grande maioria da população brasileira nunca realmente presenciou um terremoto. O terremoto foi codificado para a palavra terremoto, e esse código foi interpretado.

A imagem, o desenho, a fotografia e até mesmo o vídeo continuam a linha, como Renè Magritte discute em “Ceci n’est pas une pipe”. A representação do cachimbo não é o cachimbo, é apenas sua codificação. Mas se perguntarmos à alguém “o que é isto?”, a resposta será “é um cachimbo”.

A partir disso, vemos que a transformação de textos, sons, imagens e até mesmo sensações em zeros e uns que ocorre hoje em dia e sua rápida transmissão através da internet é uma nova codificação do que já foi codificado uma vez. A codificação se aprimora cada vez mais e cria um paradoxo: quanto mais o artificial se aproxima do real, mais distante do real ele se torna devido ao seu grande grau de codificação. Ou seja, se com o advento da linguagem o homem já se distanciou da realidade das coisas, com a linguagem digital (que “lê” o mundo através de logaritmos) o conhecimento sobre a profundidade das coisas tornou-se ainda mais distante.

No entanto, não há como voltarmos atrás na história humana. Não podemos voltar a ser simplesmente como Adão e Eva, conhecendo o mundo de forma plenamente material. O novo modelo humano PEDE por interatividade e conectividade.

A discussão chega inclusive ao ponto em que percebe-se que a própria existência humana foi codificada através do Projeto Genoma: o código de nosso DNA já foi decodificado e recodificado de maneira que podemos conhecê-lo e alterá-lo, artificializando até mesmo a vida.

A partir disso tudo, chegamos a importantes pontos de reflexão: qual é a função e o dever do designer nesse mundo codificado? Seremos responsáveis por manipular códigos, mas com quais finalidades? Criar novos modismos? Ou usá-los como ferramenta na elaboração de soluções que libertem os homens de seus modelos ultrapassados? Estaremos aproximando as pessoas da realidade das coisas ou afastando-as ainda mais? E a necessidade contemporânea que temos de nos perguntar a todo momento sobre “o que é real?”.

Conteúdos relacionados:
– Obssessivos compulsivos (A&E): http://verd.in/s7e – pessoas que se prendem exageradamente à materialidade
– Criadores de Tendências (GNT): http://verd.in/5g3 – artistas e designers inovadores
– Vanilla Sky (filme) / Matrix (filme) – o que é real?
– Todos Querem Ser Jovens (filme) / Não Me Abandone Jamais (filme) / A morte lhe cai bem (filme) – sobre a existência do homem além de seu corpo físico 
– A Era das Máquinas Espirituais (livro) / Eu, Robô (filme) – as máquinas são menos humanas que os humanos?

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A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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