Arquivo de abril \30\UTC 2013

O Mundo Codificado

– Projeto de produto e comunicação visual são partes que coexistem em um mesmo universo.

– Fabricar é comunicar, pois quando um mecanismo ou artefato é inventado, ou seja, quando o homem dá um determinada forma e função a um objeto, atribui-se a ele um conceito e assim aquilo que era apenas matéria passa a ser também um meio de comunicação.

– Flusser rejeita a separação dicotômica entre signo e coisa em si.

– a base de toda cultura é tentar enganar a natureza por meio da tecnologia

– o ser humano torna-se escravo de uma outra “natureza” que ele mesmo ajudou a gerar artificialmente, em tese, para seu próprio bem estar.

– Ao contrário da época em que ocorreu a Revolução Industrial, era do aço, das máquinas e da tecnologia com algo em que se pode tocar, o mundo de hoje é regido por códigos e convenções, linguagens e projetos que podem mudar a percepção do ser humano e não apenas a paisagem.

COISAS

– Forma e Material

Materia na antiguidade queria significar algo amorfo, contrário a forma.

O mundo dos fenômenos, tal como o percebmos com nossos sentidos,  é amorfo, atrás desses fenômenos encontramos formas imutáveis e eternas que podemos percebem graças á perspectiva supra sensível da teoria.

– A geléia amorfa dos fenômenos, o “mundo material” é uma ilusão e as formas que se encontram encobertas além dessa ilusão, o “mundo formal” são a realidade, que pode ser descoberta com o auxílio da teoria.

– descobrimos a realidade conhecendo como fenomenos informes afluem a forma e as prenenchem para depois afluirem novamente ao informe.

– o mundi material é o recheio das formas.

– o conhecimento empírico, de observar, experimentar e fazer teorias a partir disso nos fez pensar que a matéria é a realidade. mas hoje em dia com o impacto da informática voltamos a perceber o sentido original de “matéria” como preenchimento transitótio de formas atemporais.

– oposição matéria-energia – metária ilhas temporarias de aglomeracoes em campos energeticos de possibilidade.

– a materia perece, a forma é eterna. Por isso a forma é real e a matéria é aparente.

– antes se tirava formas da matéria, hoje com as imagens artificiais, formas que aparecem no campo eletromagnético, é preciso encontrar materia para oreencher formas que existem por si só nas telas do computador, virtualmente.

– antes se procurava formalizar o mundo existente, hoje se procura realizar as formas projetadad para a criação de mundos alternativos.

A Fabrica

Homo Faber – fabricar objetos é da natureza humana.

Para conhecer ahistoria do homem deve- se conhecer suas fabricas atraves dos tempos e para pensar em futuro deve- se pensar na fábrica do futuro.

Fabricar significa se apoderar de algo da natureza, dar forma a ele, converte-lo em algo manufaturado, dar-lhe uma aplicabilidade e utiliza-lo.

– mãos, ferramentas, maquinas e aparatos eletronicos

Fabricas tbm produzem novas formas de homem (fabricar sapatos te faz um sapateiro)

– ferramentas: variáveis da constante homem

– maquinas: constantes do homem que agora é a variavel.

Primeira rev. Industrial expulsou o homem da natureza, segunda rev. Industrial expulsou o homem de sua cultura.

– homem pré-histórico produzia m qualquer lugar com as mãos, quando surgiram as ferramntes foi preciso delimitar um espaço para se fabricar e depois com as maquinas o homem teve que se adequar a arquitetura da maquina , por esta ser agora mais duravel que o homem.

– relação homem aparelho eletrônico é reversível, ambos só podem funcionar conjuntamente. O aparelho faz o que o homem quiser, mas o  homem só pode querer aquilo de que o aparelho é capaz.

– Á primeira vista parece que o homem voltou a época manual, onde podia fabricar em qualquer lugar, pois agora está munido de aparelhos que leva consigo para fabricar coisas.

– O homem do futuro tende a ser mais acadêmico, que operário ou engenheiro, pois aprenderá através de aparelhos para manusear aparelhos.

– Com os aparelhos expulsando as máquinas, a fábrica não será mais o oposto da escola, a fabrica será a escola aplicada, não será um lugar desprezível, mas também um lugar de contemplação. (homo faber se converterá finalmente em Homo sapiens sapiens)

A ALAVANCA CONTRA-ATACA

– Antes as da era industrial se utilizavam Animais e escravos para potencializar a ação humana, porém não era possível a produção de tais “maquinas organicas”, então o boi deu lugar a locomotiva e o cavalo ao avião. O homem da primeira revolução industrial tinha um conhecimento raso doas coisas orgânicas e um conhecimento maior sobre como fazer maquinas inorgânicas, O que fez que por um tempo o homem ficasse escravo dessas maquinas relativamente estúpidas e caras.

– A partir do século XX, as máquinas foram se tornando cada vez menores e mais inteligentes de modo que um dia o homem poderá fabricar tecnologicamente bois, cavalo e superescravos. Isso será provavelmente denominado Revolução industrial “biológica”.

– Será possível unir a durabilidade do “Inorgânico” com a inteligência do orgânico.

– Porém as máquinas criadas para imitar o homem, fazem que o homem as imitem uma hora.  O braço passou a se movimentar como alavanca desde que esta foi inventada, o que nos faz pensar que talvez seja perigoso um “contra-ataque” de máquinas que estão cada vez mais inteligente.

A NÃO-COISA [1]

– Antes haviam as coisas na vida do homem, e viver se resumia em resolver problemas, libertar-se das circunstâncias e morria-se por causas as quais ainda não se sabia a solução.

– Hoje em dia, não existem só as informações presentes nas coisas, mas também a informação do “imaterial”. São coisas que não se poder tocas, coisas indecodificáveis.

– O entorno está cada vez mais impalpável, nebuloso e aquele que nele quiser se orientar deverá partir desse caráter espectral que lhe é próprio.

– o Homem de hoje não é mais de ações concretas é mais um performer: Homo ludens e não Homo faber. Ele deseja conhecer e desfrutar, e por não estar interessado nas coisas ele não tem problemas, em lugar disso tem programas.

– Enquanto antes se morria de problemas insolúveis no futuro se morrerá de programas errados.

A NÃO COISA [2]

– Mundo da Natureza X Mundo da Cultura (coisas existentes a serem agarradas e coisas informadas)

– Há também o mundo do Lixo: O homem consome a cultura, agita as coisas informadas até extrair toda a informação, e assim transforma-a em lixo.

– Esse lixo retorna á natureza, fazendo da história humana não um linha reta que vai da natureza até a cultura e sim um ciclo.

– Para poder saltar desse ciclo seria necessário ter a disposição informações inconsumíveis, inesquecíveis, que não poderiam ser manuseadas. E assim existiria uma cultura imaterial em busca de uma memória expansível. (Ex. Memória do Computador)

– Não coisas: simultaneamente efêmeras e ternas, pois não estão ao alcance da mão, embora estejam sempre disponíveis: são inesquecíveis.

– O homem não utiliza mais o braço para fabricar e sim as pontas dos dedos para teclar, escolher e decidir.

– Porém essa liberdade é programada, é um poder de escolha dentro do que os programas podem te oferecer.

– Sociedade do futuro de divide em programadores e programados. Na verdade programadores programados e programados, pois há um totalitarismo programado.

– Apesar de a liberdade ser programada, com a crescente melhoria dos programas surge tantas possibilidades de escolha que ultrapassa o poder de decisão do homem, o que lha dá a impressão da livre decisão e faz do totalitarismo satisfatório.

RODAS

– As coisas podem ser vistas de duas maneiras: mediante observação e por meio de leitura.

Observação: coisas vistas como fenômenos.
Leitura: pressupomos que as coisas signifiquem algo e procuramos decifrar esses significados.

– Desaparecimento das rodas. Não se ouve mais ruídos nos aparelhos eletrônicos, aquele qye quês avançar não ser coloca mais sobre rodas e sim sobre asas.

– homem e coisas, vão rumo ao perecimento.

– os atritos que detêm a roda do progresso podem ser superados de modo efetivo e o progresso começa a rolar automaticamente.

SOBRE FORMAS E FÓRMULAS

– Pesquisas: descobrir o design divino por trás dos fenômenos

– Porque podemos formular as leis naturais de diversos modos, mas não do jeito que queremos?

– Nosso sistema nervoso central recebe de seu entorno estímulos codificados digitalmente, esses são processados por meio de métodos eletromagnéticos e químicos e o sistema os converte em percepções, sentimentos, desejos e pensamentos. Percebemos o mundo conforme processado por esse sistema que é pré-programado de acordo com a informação genética. O mundo tem para nós formas que estão inscritas na informação genética desde o princípio da vida na Terra, por isso não podemos impor ao mundo as formas que quisermos.

– Porém podemos criar vários mundos no cyberespaço, não só aquele que percebemos com o sistema nervoso central.

– Kant: Real – tudo aquilo que é computado em formas.

Irreal: tudo aquilo que é computado de modo desmazelado.

PORQUE AS MÁQUINAS DE ESCREVER ESTALAM?

– estalar condiz mais com a mecanização que deslizar.

– Tudo é quantizável, calculável, mas indescritível.  Letra induzem a conversas vazias sobre o mundo, e deveriam ser deixadas de lado como algo inadequado a ele.

– Os números deixam o sistema alfanumérico para alimentar computadores, migrando para novos sistemas digitais, as letras se quiserem sobreviver devem simular números. Por isso máquinas de escrevem estalam.

– Mas o mundo talvez seja calculável, porque nós o construímos para nossos cálculos. Os números não são adequados ao mundo, mas nós adequamos o mundo aos números que criamos.

– O modo que o mundo está estruturado depende de nós próprios.

– contar procura alcançar sínteses, mas o escrever não.

– O fascinante do cálculo não é o fato de que ele constrói o mundo, o que a escrita também pode fazer, mas sua capacidade de projetar, a partir de si mesmo, mundos perceptíveis aos sentidos quando unidos a computadores.

– A revolução cultural hoje consiste no fato de que nos tornamos aptos a construir universos alternativos e paralelos a este que nos foi dado.

– Estamos desintegrando em pedaços (bits) a desprezível estrutura integra das coisas, mas não vêem que podemos transcodificá-la de acordo com nossa vontade.

Colisão e expansão

Segundo as Teorias de Flusser, dentro no design se contrapõem secularmente duas vertentes:a cultura oriental cujas as características predominantes de projeto são uma visão mais estética e simbiótica ao ambiente;agregando experiências sensoriais e a cultura ocidental onde os principais preceitos são o foco na técnica,função e racionalidade.
No mundo contemporâneo um bom exemplo de inovação seria exemplificado pela mistura desses extremos, tornando a proposta mais interativa e simpática aos hábitos.
Entretanto a proposta de V. Flusser dirige-se a uma premissa mais peculiar; a de que a verdadeira inovação e futuro do design estão além da técnica e estética ;recuperando a intuitividade instintiva anterior a própria linguagem ou de serem fixadas as necessidades e seus respectivos conceitos;desenvolvendo assim novos meios, processos de se pensar em interações ;seja entre humanos,coisas e não-coisas ou entre os limites da consciência de espaço e corpos.
Aqui vai um exemplo legal de arte-experimento conceitual oriental que mistura técnica, estética e simbiose com o ambiente:
The Secret Door

The Secret Door is presented by Safestyle UK

Notas sobre TAZ

Pequenos textos sobre o texto TAZ para quem não for ler o livro.

ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA

Kelton Gabriel

Mestrando em Geografi a da Universidade Federal do Paraná – UFPRAv. Francisco H dos Santos, s/n – CEP 81531.990 – Cx. Postal 19001 – Curitiba (PR), Brasil Tel./ Fax: (+5541) 3361 3450 / 3361 3244 – kelton.gabriel@gmail.com

RESENHA DE: BEY, Hakim. TAZ: zona autônoma temporária. (coleção Baderna) São Paulo:Conrad, 2001, 88 p.

 

Hakim Bey é uma figura enigmática, não podemos nem mesmo afi rmar que exista apenas um Hakim Bey no mundo, alguns dizem que é pseudônimo do também enigmático Peter Lamborn Wilson, no entanto pode ser ele (Hakim Bey) também um nome coletivo assim como Luther Blissett e Vitoriamario, no entanto ele publicou um livro intitulado TAZ (Temporary Autonomous Zone),publicado no Brasil pela Conrad em 2001, e é sobre este livro que a presente resenha crítica se empenha.

O conceito da TAZ foi tão bem interpretativo na nossa atual época que serve de modelo explicativo para uma ampla gama de fenômenos geográfi cos.

O livro de Bey se apresenta em oito capítulos e cinco apêndices curtos que não serão aquitrabalhados. Onde podemos entender da seguinte maneira: No começo do livro ele explica sobre uma primitiva “rede de informações” de piratas do séc XVIII. Essa rede era formada por remotas ilhas e esconderijos dentro de cavernas onde os navios eram abastecidos e trocavam-se alimentos por objetos roubados com moradores totalmente isoladas, que ele chamou de “mini-sociedades”.Como não conseguiu fontes secundárias sobre essas sociedades Bey se aprofundou e construiu sua própria teoria sobre tais comunidades, que ele chamou de “Utopias Piratas”.

Esse sistema primitivo não poderia expressar melhor a atual condição de algumas comunidades virtuais, que se alimentam de modo isolado da realidade predominante capitalista. E ele cita o cyberpunk Bruce Sterling que acredita que em um futuro próximo com a decadência dos sistemas políticos e capitalistas o mundo viverá de modo similar a esses primitivos povos isolados se alimentando de informações em base de troca pela internet, ou o que justifica o título do livro citado “Ilhas na Rede”.
Hakim Bey cita o exemplo de mais um grupo os Assassins (que signifi ca usuários de Haxixe),onde estes fundaram uma rede de remotos castelos separados por centenas de quilômetros completamente isolados de qualquer tipo de influência além dos agentes secretos que conectavam os pontos dessa rede usando cavalos e levando informações. Bey declara que no futuro o mundo poderá ser repleto de ilhas piratas como está, e chama elas de “Zonas Autônomas” livres de qualquer controle político, porém acredita que hoje o conceito é apenas uma fi cção científi ca, pois jamais poderíamos ser pessoas a habitarem uma terra completamente livre e autônoma. E, no entretanto, declara que é possível hoje mesmo sermos livres e utilizarmos o que ele chama de TAZ, porém diz que não irá defi nir o que exatamente signifi ca TAZ porém saberemos o que é de modo intuitivo pois ela se revela quando estamos em ação.
Na outra parte do livro começam a se revelar aspectos que Hakim Bey não é apenas um, mas sim um grupo, pois a linguagem e o modo de expressão das idéias muda de modo radical. Independente deste fato continuaremos a pensar que Hakim Bey exista, pois pessoas podem mudar e seria má-fé se não se aceitasse uma pessoa poder escolher como queira se chamar, mesmo podendo ser um texto subversivo ele tem seu conteúdo extremamente interessante para a Geografia.
No adentrar nessa parte do livro é indicado o modo como uma TAZ pode sobreviver perante a política atual, pois ela consegue se esconder, sumir e aparecer em outro lugar, pois a essência dessa organização é desconhecida o que torna a TAZ um fenômeno “místico” porém agente espacial. Exemplos clássicos em nossos dias são as chamadas empresas fantasmas, que atuam mas não existem, as redes invisíveis do tráfi co de drogas e armas, os grupos de contracultura, e os lugares que uma pessoa vive seu dia, todos esses processos são TAZ’s invisíveis ao controle do Estado, assim como o Estado possuí muitas TAZ’s invisíveis ao cidadão.
Assim, seguindo o capítulo, hoje podemos entender que na web temos a maior gama de existência desses fenômenos espaciais, pois pode-se encontrar verdadeiras comunidades agindo em um determinado espaço de informações em um determinado tempo e depois todos somem, como nos tradicionais fóruns, ou páginas coletivas de exposição de informações.
Esse processo nos remete ao que Bey chama de “A Psicotopologia da Vida Cotidiana”, onde aponta que o último pedaço de terra que foi propriado e perdeu sua natureza de liberdade ocorreu em 1899, depois disso todos as terras do mundo estão sob o nacionalismo e a cobrança de impostos, nenhum pedaço de rocha escapa do controle geral dos Estados.
Nesse ponto ele relata algo interessante, que há muito cogitava, que existia uma Geografi a não-européia, pois a Ilha da Tartaruga era o nome dado pelos indígenas ao que chamam hoje Estados Unidos. A Geografi a – como ciência – deve sua origem a Europa, especifi camente a Alemanha e a França, porém temos que lembrar que a terra antes disso já era coberta por um conhecimento geográfi co de povos primitivos, e que pode-se imaginar como eram transmitidos os conhecimentos geográfi cos dentro de instituições de ensino milenares como os templos budistas do oriente, e assim como, a geografi a praticada pelos Incas e Maias, ou os povos africanos, os aborígines australianos e as nações indígenas do Brasil.
Hakim Bey relata que imensidões de terras escapam ao detalhe dos  mapas, e que jamais poderemos conceber a precisão de um mapa 1:1. Nesses espaços não controlados ele diz que a TAZ funciona, pois não há mapas abertos para evitar uma existência de alguma coisa espacial e organizada nesse lugar. Nesse momento da obra Hakim Bey funda o termo psicotopologia (psicotopografi a), que outros chamariam de psicogeografi a, que seria uma “ciência alternativa” àquela ciência estatal criadora de mapas. Argumenta que apenas essa ciência tem a possibilidade de criar mapas 1:1, o que é justifi cado na idéia de que apenas a mente humana é capaz de modelar a realidade em uma representação perfeita. No entanto ele admite que um mapa 1:1 não pode controlar seu território pois é idêntico ao que representa, sendo que esse mapa poderia apenas ser um guia para se buscar espaços – sejam eles geográfi cos, sociais, culturais, imaginários – para se fundar zonas autônomas em brechas deixadas pelos cartógrafos do Estado. Para nós geógrafos todos os espaços são geográficos.
Bey diz que a família nuclear (mãe, pai e fi lhos) é uma invenção recente e agrícola, e que deve ser substituída pela vivência em bandos similares aos caçadores e coletores, com aproximadamente 50 pessoas. Diz que a família nuclear é fechada e hierárquica com o pai dominando a mãe e os fi lhos, já dentro do bando as pessoas são abertas e seus laços são o sentimentalismo humano. E relata que aos poucos a sociedade atual está voltando ao primitivismo do bando e os mais jovens estão cada vez mais tomando essa consciência de poligamia do que o fechamento em uma família nuclear, o que seria um refl exo do fracasso futuro do sistema capitalista, sendo que grande parte da produção capitalista gira entorno da família nuclear e seu sustento.
Em trechos Bey explica que as festas entre grupos são zonas autônomas, pois apresentam sempre um não planejamento e as coisas acontecem de modo completamente espontâneo, e desaparecem do espaço geográfi co no mesmo momento que o último decide que já terminou a festa. Isso signifi cauma manifestação espacial temporária, um evento que geografi camente só poderia ser entendido sob o conceito de zona temporal. E explica que a festa poderia ser chamada de a “união dos únicos”.
Nota-se no decorrer do livro o surgimento do termo “nomadismo psíquico”, que é o mesmo conceito estudado por Guattari e Deleuze denominado “cosmopolitismo desenraizado” no Tratado de Nomadologia no volume 5 de Mil Platôs. Esse desenraizamento é justamente o que se referimos acima sobre sair do contexto espacial e histórico. Com a “morte de Deus”, de Nietzsche, Bey explica que passou-se a uma descentralização do modelo Europeu de mundo para outras possibilidades capaz de considerar a visão de um inseto dourado como uma nova possibilidade existencial nem melhor nem pior porém “inteiramente diversa”.
Hakim Bey comenta sobre uma casta de desenraizados, como ciganos, intelectuais e artistas, sem-tetos, turistas, cibernaútas, trabalhadores imigrantes e todos os moradores de trailers como integrantes dessa portabilidade de produzir TAZ. Ele firma que o “nomadismo psíquico” engloba todos os atuais moradores do planeta quando estes alteram suas rotinas, suas tarefas e tentam se adaptar aos próprios desejos e liberdades do momento. Diz que esse conceito é uma tática empregada por nômades acamados com “tendas negras sob as estrelas do deserto”, pessoas que vivem sendo um modelo a ser seguido para todos os que anseiam a liberdade total.
Levando essas concepções para a Internet e a Web Hakim Bey explica que dentro da net, que  le defi ne como uma totalidade de fluxos informacionais restritos e abertos, surgiu uma espécie de “contra-net” ou como ele propõe que se chame web, que ele defi ne como o lado aberto para os fl uxos de informações. E, afi rma que esses termos “não foram criados para defi nir áreas, mas para sugerir tendências” (BEY, 2001, p. 32).
Este livro que analisamos foi escrito nos anos 80, por isso há muitas idéias dentro da net, que já se realizaram, como por exemplo a internet. Porém como uma exposição visionária Hakim Bey expressou nos anos 80 o que hoje vivemos e ainda há possibilidades futuras de mais revelações.Ele entende que a TAZ exista temporariamente dentro da web e ao mesmo tempo de modo real no mundo.

Bey trabalha muito mais com tendências do que com defi nições, e afirma que em futuras tribos ou bandos pós-modernos poderão, ou já podem, viver presságios e outras maneiras intuitivas de existência dentro da web. O que nos indica uma espécie de apropria ção primitiva dos meios tecnológicos, uma união entre o espírito puro e natural nas entranhas da mais alta tecnologia. Um movimento desse gênero é o MSST (Movimento dos Sem Satélite), que foi encontrado em pesquisa pela internet, que tem a expressão de uma autonomia cibernética sem centralização alguma.
Por acreditar que o fluxo de informações dentro da web e da contra-net seja livre e sem o controle da net ofi cial, Bey afi rma que a Teoria do Caos explica justamente um mundo sem nenhum controle universal e sim pequenas organizações libertas. Esse refl exo é muito real em nossos dias, como por exemplo os sistemas operacionais livres, como o Linux, e centenas de programas de computador desenvolvidos por grupos libertos e doados ao uso de todos, o que prejudicou a soberania de empresas como a Microsoft, podendo prejudicar muitas outras  empresas com a troca de informações e o saber-fazer gratuito. Hoje é possível entender o funcionamento e a montagem de uma ampla gama de tecnologias, produtos alimentícios, de higiene e manutenção do sistema
biológico de modo gratuito.
Bey vê que os atuais piratas da informação (Hacker) são os habitantes dessas zonas autônomas dentro da web, o que os fazem segundo a  personalidade de cada um deles serem benéfi cos aos usuários disponibilizando conteúdos informacionais de modo gratuito ou maléfi cos com perspectivas capitalistas de acesso a contas bancárias e grandes roubos informacionais criando um verdadeiro mercado negro de patentes.
Na busca de gerar a concretização de um “arquétipo” da TAZ Bey declara que a alquimia infl uenciou muito a formação do Novo Mundo. Cita a ilha de Roanoke na costa do estado Carolina do Norte dos Estados Unidos onde um primeiro grupo de imigrantes ingleses se fi xou entre 1585 a 1587. A história estatal explica que esses colonos sumiram e deixaram apenas uma mensagem escrita “fomos para Croatã”, a interpretação do Estado Inglês foi que os colonos foram trucidados pelos índios, porém na verdade Croatã não era um lugar no além e sim um grupo de índios com olhos cinzas que ainda existem em uma região pantanosa entre os dois atuais estado americanos Virgínia e Carolina do Norte. Os colonos mudaram do litoral para morarem junto com esses índios, segundo Bey optaram pelo estilo de vida liberto dos índios aos regimes totalitários dos intelectuais ingleses.

Esse exemplo Bey confi rmar ser uma “proto-TAZ” bem sucedida no Novo Mundo, a primeira de muitas a fugirem do domínio estatal e ansiarem a liberdade informacional e existencial. Segundo Hakim Bey esses colonos se juntaram com os índios e aceitaram espanhóis e negros formando um grupo anti-estatal que mais tarde seriam grandes piratas e pessoas “ilegais”.
Hakim Bey enfatiza que uma TAZ é o berço de fuga existencial e está desde os primórdios grafada no espírito humano. Cita o exemplo de várias comunidades isoladas do poder estatal, e pode-se perceber que o anonimato é um meio de agir e fugir do controle estatal, por essa razão percebe-se a opção de usar nomes coletivos (como talvez o Hakim Bey e o famoso na Itália Luther Blissett) para agir no mundo e não ser pego pelo controle do Estado.
Essa natureza e concepção da TAZ revela-se claramente que a ZPC também é um modo de anonimato, onde as pessoas se escondem em seus afazeres para fugir da repressão da sociedade e do Estado. Bey enfatiza que sempre quando um americano quer abandonar sua vida cotidiana ele vira um índio e se fixa na natureza.
A festa como já se pôde notar é a base de uma organização espacial temporária, e a música é a quebra de qualquer controle estatal. Segundo Bey essas são as regras para se estabelecer uma TAZ, e cita na história muitos casos de anarquistas em períodos de guerra, onde optaram em viver ao invés de planejar algum plano de fuga ou de sobrevivência eliminando qualquer possibilidade de lutar para ou contra o Estado.
Hakim Bey chama de “A Ânsia de Poder como Desaparecimento” a condição humana em tendência e nesse momento talvez consigamos perceber uma faceta da TAZ de fundamental importância para a Geografi a, a TAZ como uma “tática de desaparecimento”.
Em histórias de quadrinhos pode-se perceber o quando é poderoso aquele mutante que consegue desaparecer e surgir em outro lugar. Essa idéia é real dentro do espaço geográfico, podendo não ser para uma física naturalista. Hakim Bey diz que não precisa-se lutar contra àqueles que “herdaram todas as chaves de todos os arsenais e prisões”(BEY, 2001,  p. 63), porque eles perderam o sentido do mundo e apenas fazem uma simulação.
O desaparecimento no espaço geográfi co pode ser registrado nos circos, que ficam uma semana e desaparecem, nas barracas de vendas, nos parques de diversão ou nas apresentações culturais. Isso ocorre em todos os espaços geográficos: na imaginação, no ciberespaço, na política e espaços de poder.
Hakim Bey propõe que um desaparecimento seria um poder, e para isso necessita-se “recusas” do mundo estatal, uma emergência de uma TAZ para que ali se viva de modo escondido e livre. Nesse sentido a TAZ seria uma ZPC liberta do controle do Estado, onde as trocas substituiriam o dinheiro e as “promessas” seriam as identidades.
Agora pode-se perceber que existe uma ampla gama de perspectivas de existência de grupos humanos que vivem de modo similar, e que ao invés de simularem e representarem um poder eles de fato o são, em pura liberdade, ou são marginalizados por falha do Estado em incluir tudo e todos ou são voluntariamente.
Nisso Bey aponta 3 passos dentro do caminho para se viver uma TAZ, 1° Liberação Psicológica, onde deve-se aprender quais são os mecanismos de opressão, e de auto-opressão e defi nir as fantasias criadas pelos outros que servem de opressão. 2° A contra-net deve se expandir. Nessa época era uma questão fundamental para uma TAZ, porém hoje já pode-se perceber que a contra–net está expandida. 3° Ânsia de Poder. Bey afi rma que o Estado deve continuar a perder sua regulamentação pelo desaparecimento daqueles que ele controla, e que o fi m do poder estatal deve ser um desaparecimento dos dominados. Pode-se entender a política da não-violência de Gandhi como um exemplo desse desaparecimento, porém dentro dessa TAZ os ataques existem e  esaparecem.
Esse fenômeno é muito comum para o estudo da Geografia atualmente, e deve-se entender justamente o funcionamento interno desse mecanismo para aprimorarmos nossos estudos em objetos pós-modernos.

Portanto fi cou claro que a obra de Hakim Bey foi produzida por um grupo de pessoas ligadas a contracultura, e que se transmitem idéias de anarquias e superação do Estado. Nosso papel não é aceitar ou negar nenhuma atitude política, o importante para a Geografia é que esse grupo revelou como funciona um sistema que atualmente existe na realidade que denominamos de Zona Temporal para o uso na Geografia.

Pode-se perceber que os quadrados se encaixam dentro na malha geográfica de identidades espaciais com suas dimensões reconhecidas pelo sistema de representação espacial formal, assim como os sujeitos se enquadram nesse lugar e fundam territórios, que são instituições persistentes no espaço e no tempo. Por outro lado os sujeitos que fundamentam zonas temporárias não apresentam coerência de lugar e identidade naquele espaço, que passa a ser um espaço hospedeiro e temporário e com suas ações as zonas temporárias de manifestam sem persistência no tempo e no espaço. A zona é mais ligada ao tempo, enquanto o território é mais ligado ao espaço.
Com esse entendimento podemos estudar fenômenos urbanos atuais, que em sua grande maioria são obscuros para os olhos do cidadão comum, pois se alguma coisa se revelar no espaço pode-se aparentar um certo envolvimento criminal, porém a ciência trabalha em prol do entendimento da realidade e o uso de cada conhecimento cabe ao cientista decidir o que fará ou não com ele. O importante é entendermos como funcionam essas organizações não-oficiais e supra-oficiais, como elas agem e sobrevivem. A TAZ revela para o geógrafo uma ferramenta metodológica fundamental, da qual não pode-se ignorar por posições moralistas, porque elas existem. A TAZ é usada desde grupos anarquistas e facções criminais, até por autoridades de organizações multi-nacionais e pessoas do poder estatal. A TAZ é o espaço geográfi co mais utilizado em nossos dias, porque é um espaço: tático, liberto, temporário e incapturavél. Quase todas as pessoas criam TAZ na internet todos os dias, assim como em suas mudanças de planos para suprir necessidades diárias e tudo isso de modo espontâneo, porém tático.

Notas sobre a TAZ: ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA

 por Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira[1]

COMO É QUE O MUNDO “virado-de-cabeça-para-baixo” sempre acaba se endireitando? Por que, como estações no Inferno, após a revolução sempre vem uma reação?

Eis o cerne do livro-manifesto TAZ – Zona autônoma temporária, de Hakim Bey, editado no Brasil pela Conrad Editora. Tal designação – livro-manifesto – parece-me a mais indicativa das intenções do autor: analisar e propor alternativas à luta por mudanças no mundo tal como está posto, sucumbido à globalização neoliberal com seu rastro de funestas conseqüências, gerando ou agravando a desigualdade em todos os âmbitos da vida. Como se apresenta a luta política na era do globalismo, quando o Estado nacional passa a ter um papel coadjuvante em relação às grandes corporações transnacionais amparadas pelos organismos multilaterais de caráter também mundial? Quais os propósitos e as formas de ação para resistir e, sobretudo, para alterar as estruturas desiguais de poder? Como se libertar dos controles que abafam as potencialidades humanas? Como não sonhar com um mundo que fuja à uniformização alcançada com o processo civilizatório capitalista, em que o homem seja o centro de todas as ações? Algumas dessas questões encontram respostas na fantasia poética de Hakim Bey. Algumas outras permanecem suspensas (mas não esquecidas). Meu objetivo é analisar as proposições da TAZ, inseridas no contexto contemporâneo e, com um pouco de ousadia, pensar o alcance dos novos movimentos sociais.

A TEIA DA GLOBALIZAÇÃO

A globalização do mundo expressa um novo ciclo de expansão do capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório de alcance mundial.(…) Assinala a emergência da sociedade global, como uma totalidade abrangente, complexa e contraditória [IANNI, 2001:11].

A crescente internacionalização do capital a partir da década de 1990, definindo um mercado mundial, uma produção internacionalizada, uma elite dirigente internacionalizada, amparada por organismos multilaterais internacionais, novas tecnologias de informação ligando instantaneamente todas as regiões do globo, a exploração de mão-de-obra das economias com baixos salários e sem benefícios sociais, o poder crescente das empresas transnacionais em detrimento dos estados nacionais, que passam a funcionar cada vez mais como organismos garantidores da funcionalidade do capital internacional, são algumas das características fundamentais da era do globalismo, entendido não em sua inexorabilidade e sim como ciclo de expansão do capitalismo. Segundo Milton Santos

É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a forma atuais da globalização seriam irreversíveis. Isso também tem a ver com a força com a qual o fenômeno se revela e instala em todos os lugares e em todas as esferas da vida, levando a pensar que não há alternativas para o presente estado de coisas. [SANTOS, 2001:160]

É de fundamental importância que se entenda a globalização nesses termos, uma vez que todo processo tido como inexorável não é passível de mudanças. Ao mesmo tempo em que marca a emergência de estruturas complexas, contraditórias e abrangentes, a globalização abre novas perspectivas para indivíduos e coletividades. É nesse interstício que surgem novos movimentos sociais, como fruto das inquietações de diferentes setores da sociedade com relação à dinâmica da globalização. Há a percepção de que as formas de ação devem ser modificadas, trabalhando com as fissuras e não com a demolição do edifício.

RESISTÊNCIAS

A história do mundo moderno – com suas raízes plantadas no Renascimento, consolidadas no século XVI com as grandes navegações e, posteriormente com o surgimento do capitalismo, quando o pensamento europeu com seus valores universalistas fertiliza o pensamento de diferentes partes do mundo – é toda ela marcada por levantes, revoltas e revoluções contra as estruturas de dominação. Segundo Immanuel Wallerstein, no século XIX nasce o conceito de organização permanente que inovará as formas de luta contra o poder, quando os movimentos trabalhistas-socialistas e os movimentos nacionalistas se constituirão em movimentos organizados, continuados e burocratizados, ora com viés revolucionário, ora reformista. [WALLERSTEIN, 1985:56] Esse parece ser um dos grandes dilemas a atravessar as revoltas do mundo moderno, colocando a questão: tomada de poder e mudança radical ou apenas reformas dentro das estruturas existentes?
É esse o gancho para o livro TAZ, objeto do presente artigo. Tomando-o como emblema de propostas que têm surgido no que diz respeito às novas formas de luta, sem descuidar de suas especificidades (o que seria uma forma de engessá-los em uma homogeneização empobrecedora), é possível entendê-las dentro do contexto atual, de globalização neoliberal. Há alguns pontos que perpassam diferentes movimentos: lutam não pela tomada de poder e sim pela conquista de direitos; têm caráter fluido; assumem as diferenças e se concretizam em formas de socialidades múltiplas não determináveis, não totalizáveis; apresentam caráter internacional a partir da crença de que, quanto mais globalizado se torna o capitalismo, mais globalizada deverá ser a luta contra ele. O que parece estar implícita é a percepção de que o sistema capitalista (e aqui a palavra sistema deve ser entendida tal como definida pela teoria sistêmica, isto é, como um todo funcional que se compõe de partes interdependentes que se relacionam em busca de equilíbrio e interesses mútuos1) tem a estabilidade como pedra de toque e, portanto, as rupturas são evitadas através da contínua reincorporação das partes dissidentes do sistema. Como fugir dessa constante recomposição do sistema, isto é, como evitar, tal como salientado na epígrafe que abre o presente artigo, que o mundo pós-revolucionário se endireite, que depois da revolução venha a reação? Como romper com o sistema a partir de dentro, desestabilizá-lo mesmo que momentaneamente, confrontá-lo com crises que não haviam sido previstas?

ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA

O conceito de TAZ2 não é explicitado no livro, já que o autor não deseja construir dogmas políticos e acredita que o conceito deve se construir em ação. A despeito disso, é possível percebê-lo ao longo da leitura, a partir da crítica ao conceito clássico de revolução e de uma análise do conceito de levante. Segundo Hakim Bey,

Levante e insurreição são palavras usadas pelos historiadores para caracterizar revoluções que fracassaram – movimentos que não chegaram a terminar seu ciclo, a trajetória padrão: revolução, reação, traição, a fundação de um Estado mais forte e ainda mais opressivo -, a volta completa, o eterno retorno da história, uma e outra vez mais até o ápice: botas marchando eternamente sobre o rosto da humanidade.
Ao falhar em completar esta trajetória, o levante sugere a possibilidade de um movimento fora e além da espiral hegeliana do “progresso”, que secretamente não passa de um ciclo vicioso.
Surgo: levante, revolta. Insurgo: rebelar-se, levantar-se. Uma ação de independência. Um adeus a essa miserável paródia da roda kármica, histórica futilidade revolucionária. O slogan “Revolução!” transformou-se de sinal de alerta em toxina, uma maligna e pseudo-gnóstica armadilha-do-destino, um pesadelo no qual, não importa o quanto lutamos, nunca nos livramos do maligno ciclo infinito que incuba o Estado, um Estado após o outro, cada “paraíso” governado por um anjo ainda mais cruel.
Se a História É “Tempo”, como declara ser, então um levante é um momento que surge acima e além do Tempo, viola a “lei” da História. Se o Estado é História, como declara ser, então o levante é o momento proibido, uma imperdoável negação da dialética.
(…) O que foi feito do sonho anarquista, do fim do Estado, da comuna, da zona autônoma com
duração, da sociedade livre, da cultura livre?Devemos abandonar esta esperança em troca de um acte gratuit existencialista? A idéia não é mudar a consciência, mas mudar o mundo. [BEY, 2001:15 e 16]

 

Há desconfiança em relação à idéia de revolução (e Marx parece ser a referência não explícita) e aos preceitos anarquistas, na medida em que, apesar de buscarem mudanças radicais em relação ao sistema capitalista, agem dentro dele e possuem vocação para se recomporem voltando ao status quo ante (tanto o capitalismo como o socialismo trabalham com conceitos comuns, sendo o de progresso o mais forte deles). Daí a inserção do conceito de levante, entendido como uma experiência de pico, porquanto temporária, em contraposição ao conceito de revolução que, para o autor, adquire caráter permanente, traindo os ideais que foram sua força motriz. Para Bey, tais momentos de intensidade moldam e dão sentido a toda uma vida já que, ao experimentar a TAZ, algo mudou, trocas e interações ocorreram – foi feita uma diferença. [BEY, 2001:18]
Importante frisar que as propostas contidas na TAZ são propostas de ação, não fabulações ou meros exercícios filosóficos. Além disso, a análise do mundo contemporâneo na era do globalismo determina novas formas de confronto que, paradoxalmente, são por um lado globalizadas e por outro, localizadas. Um exemplo notável de tal paradoxo é o movimento zapatista mexicano. Não se pretende afirmar que a experiência de Chiapas seja algo como a concretização da TAZ, mas há muitos elementos em comum, embora o conceito de temporalidade seja substancialmente diferente, na medida em que a zona autônoma zapatista não se pressupõe temporária, pilar fundamental do conceito de Bey. Os zapatistas lutam não pela tomada de poder nacional mas, ao contrário, por menos ingerência do Estado em sua região, tradicionalmente de povos indígenas. Em tal zona autônoma busca-se a consolidação da democracia direta, da liberdade e da justiça, através do fortalecimento da vida comunal, do governo participativo e da cultura maia, pelo direito à diferença e à pluralidade. Apesar de se apresentar como uma luta localizada, desde o início contou com a participação global de simpatizantes do movimento, o que foi de fundamental importância na resistência aos ataques por parte do governo mexicano. A solidariedade internacional fortaleceu o movimento, não buscando descaracterizá-lo de suas especificidades ou subordiná-lo, nem tomá-lo por modelo universal3. A convivência entre diferentes movimentos em torno da luta pela mudança do mundo tal como está posto, de globalização neoliberal, é um dado novo na história dos movimentos sociais. Grupos diversos, com táticas, objetivos e matrizes diversos convivem em resistências pontuais que se constroem e se dissolvem momentaneamente, o que expõe, como base de união, a crença na diversidade e na pluralidade, um mundo em que caibam vários mundos, nas palavras do subcomandante Marcos, do EZLN.
O que está sendo posto em xeque são os elementos definidores da revolução de matriz marxista: luta de classes, proletariado, Estado. A crise das perspectivas alternativas ao liberalismo tende a dissolver o vínculo que unia partidos e movimentos sociais numa visão conjunta sobre o futuro a ser construído [AGUITON, 2002:22]. Em um mundo em que a tecnologia exclui dia a dia mais trabalhadores e as lideranças são olhadas com desconfiança, como acreditar que a humanidade almejada, liberta e emancipada, virá a partir da revolução? Como criar um mundo novo sem que seja preciso destruir o atual? (isso não significa que partidos de esquerda, sindicatos e outros movimentos afins devam ser excluídos da luta política e sim que passam a fazer parte da pluralidade almejada).
A TAZ busca a libertação de todos os controles, enclaves libertos a partir da crença de que a vida cotidiana tem um forte potencial revolucionário. A TAZ imagina uma intensificação da vida cotidiana, a penetração do Maravilhoso na vida. Essa pressuposição nos remete aos movimentos iniciados na década de 1960, que inauguraram um novo fazer político ao instituir o corpo como arma revolucionária, isto é, ao trazê-lo ao centro da cena como agente fundamental de transformação: a socialidade cotidiana é eminentemente política. Mudanças substanciais só ocorrerão a partir da revolução pessoal. Citando novamente Hakim Bey,

Em resumo, não queremos dizer que a TAZ é um fim em si mesmo, substituindo todas as outras formas de organização, táticas e objetivos. Nós a recomendamos porque ela pode fornecer a qualidade do enlevamento associado ao levante sem necessariamente levar à violência e ao martírio. A TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la. [BEY, 2001:18]

 

A ação proposta pela TAZ dá-se a partir das fissuras do poder, momentos de suspensão que, ao serem deflagrados, devem desaparecer para reaparecer sob nova forma, em uma outra área. A TAZ ocupa espaços vazios do mapa, não preenchidos pelo poder, o que inclui o mundo virtual da web, definido por Bey como uma estrutura aberta, alternada e horizontal de troca de informações em oposição à net que seria hierarquizada e elitizada (a totalidade de todas as transferências de informações e de dados). Emergiu da net esse tipo de contra-net, ou web, cujo uso clandestino, ilegal e rebelde dá à Taz a possibilidade de concretizar-se. A pirataria de dados, as transmissões não autorizadas e o fluxo livre de informações não podem ser detidos4. A Taz ocupa espaço no mundo real e no virtual. Para o autor, o levante representa uma possibilidade muito mais interessante no que se refere a uma psicologia de libertação do que aquelas possibilitadas pelas revoluções (quer sejam burguesas, comunistas, fascistas etc).
A partir do fim da guerra fria – marcado pela queda do regime comunista nos países do leste europeu no final da década de 1990 – a bipolaridade comunismo/capitalismo deixou de ser a referência a guiar corações e mentes e o mundo do capital global ressurgiu triunfante. As proposições contidas na TAZ buscam ocupar uma “terceira” posição não contemplada pela dicotomia anterior, uma oposição pela presença (solidariedade) e pela diferença, em contraste com o monolitismo individualista contemporâneo. O que está implícito é que valores tais como humanidade, solidariedade e pluralidade serão os elementos capazes de trazer novamente o homem ao centro da cena (atualmente ocupada pelo capital), libertá-lo e emancipá-lo. A TAZ se pretende uma experimentação não só de novas formas de ação política, mas de novas bases sociais comunitárias a fim de constituir governos da liberdade.

A TAZ deseja acima de tudo evitar a mediação, experimentar a existência de forma imediata. [BEY, 2001:34].

DESAFIOS E POSSIBILIDADES

A mesma mundialização da questão social induz uns e outros a perceberem as dimensões propriamente globais de sua existência, das suas possibilidades de consciência. Juntamente com o que é local, nacional e regional, revela-se o que é mundial. Os indivíduos, grupos, classes, movimentos sociais, partidos políticos e correntes de opinião pública são desafiados a descobrir as dimensões globais dos seus modos de ser, agir, pensar, sentir e imaginar. Todos são levados a perceber algo além do horizonte visível, a captar configurações e movimentos da máquina do mundo. [IANNI, 2001:22]

A emergência de novos movimentos sociais parece refletir a sensibilização crescente de atores sociais frente ao encaminhamento do mundo tal como o assistimos, em que o neoliberalismo, como nova estratégia do capitalismo para se reproduzir, constitui-se em alvo comum. É clara a dificuldade de análise do alcance de tais movimentos – tanto para seus simpatizantes como para seus críticos – e das estratégias necessárias para que não sejam engolidos pelo próprio sistema que estão combatendo. A grande pergunta colocada reiteradamente pelos representantes do sistema, que assume ares de crítica desmoralizadora, diz respeito ao papel das lideranças, o que pode ser considerado um sinal de incompreensão do que representam, já que a não existência de lideranças é justamente um dos elementos-chave e elo comum entre eles: a liderança é assumida por cada um dos participantes, como símbolo da democracia participativa que os caracteriza. Como compor lideranças se é impossível personificar o inimigo a combater? Algo como uma declaração de princípios a unir os movimentos é outra das críticas feitas repetidamente (e as empresas de mídia são um porta-voz astuto dessas questões), como se essa ausência fosse a comprovação de sua fraqueza ou de sua falta de clareza, algo como uma luta sem objetivos, símbolo do caos. Ao contrário, é um sinal claro da possibilidade de fortalecimento de tais movimentos: a dificuldade de apreensão a partir de bases tradicionais. Aí reside, a meu ver, a força de suas propostas: a fluidez, a invisibilidade, a possibilidade de transformação, a diversidade, a heterogeneidade, a dificuldade de controle. Concluindo com Naomi Klein,

O que parecia estar surgindo organicamente não era um movimento para um governo único global, mas uma visão de uma rede cada vez mais conectada de iniciativas locais, cada uma delas baseada em democracia direta.
Quando os críticos dizem que os manifestantes carecem de visão, o que realmente estão dizendo é que eles não possuem uma filosofia revolucionária abrangente – como o marxismo, a ecologia profunda ou a anarquia social – com a qual todos possam concordar. Isso é absolutamente verdadeiro, e devemos ser extraordinariamente gratos por isso.
(…) É mérito desse movimento jovem que ele tenha rechaçado todos esses programas e rejeitado o manifesto generosamente doado de todos, insistindo em um processo democrático e representativo aceitável para levar sua resistência ao nível seguinte.
[KLEIN: 2002:491

 

Bibliografia:

AGUITON, Christophe. O mundo nos pertence. São Paulo Viramundo, 2002.
BEY, Hakim. TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo, Conrad Editora, 2001.
IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.
___________. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.
KLEIN, Naomi. Sem logo. Rio de Janeiro, Record, 2002.
LUHMANN, Niklas. Sociedad y sistema: la ambición de la teoria. Barcelona, Paidós, 1990.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro, Record, 2001.
TADDEI, Emilio (org). Resistências mundiais: de Seattle a Porto Alegre. Petrópolis, Vozes, 2001.
WALLERSTEIN, Immanuel. O capitalismo histórico. São Paulo, Brasiliense, 1985.

 

1 Ver LUHMANN, Niklas. Sociedad y sistema: la ambición de la teoria. Barcelona, Paidós: 1990.
2 Temporary Autonomous Zone (TAZ).
3 Em artigo intitulado “Pela humanidade e contra o neoliberalismo: linhas centrais do discurso zapatista”, Ana Esther Cecena aponta que o sujeito revolucionário, o portador da resistência cotidiana e calada, que se torna visível em 1994, é muito diferente ao das expectativas traçadas pelas teorias políticas dominantes. Seu lugar não é a fábrica, mas as profundezas sociais. Seu nome não é proletário, mas ser humano; seu caráter não é o do explorado mas o do excluído. Sua linguagem é metafórica, sua condição indígena, sua convicção democrática, seu ser, coletivo. Em seguida afirma que, opor ao poder capitalista organizado a ditadura do proletariado é reproduzir as normas sociais em um sentido inverso bastante duvidoso. [TADDEI (org), 2001:186-198].
4 Note-se: Desta forma, a web, para produzir situações propícias para a TAZ, irá paralisar a net. Mas também podemos conceber esta estratégia como uma tentativa de arquitetar a construção de uma net alternativa e autônoma, “livre” e não parasítica, que servirá como a base de uma “nova sociedade emergindo do invólucro da antiga”. Em termos práticos, a contra-net e a TAZ podem ser consideradas como fins em si mesmas – mas, em teoria, também podem ser vistas como formas de batalha para se forjar uma realidade diferente.[Bey, 2001: 38,39]

 

 

 

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A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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