O hipertexto, o design canônico, o design não-canônico e o design cambiante

Desde sempre o homem vem em busca da informação. Na hierarquia da sociedade atual, aquele que possui a informação necessária para o momento é o que detêm poder. A função do design gráfico é passar mensagens e informações por meio de peças gráficas normalmente aplicadas sobre o suporte de papel, ou seja, está ligado de forma íntima à sociedade pela informação, sendo influenciado pelo contexto do momento.

Para a mensagem conseguir ser entendida pelo receptor, o designer deve conhecer o caminho que uma informação percorre pelas referências do observador. Estas referências estão como numa grande rede interligada, denominada hipertexto desde 1945 por Venevar Bush.

A questão do hipertexto é trabalhada e exemplificada pelo filósofo da informação Pierre Levy: “Quando ouço uma palavra, isto ativa imediatamente em minha mente uma rede de outras palavras, de conceitos, de modelos, mas também de imagens, sons, odores, sensações proprioceptivas, lembranças, afetos, etc. Por exemplo, a palavra ‘maçã’ remete aos conceitos de fruta, de árvore, de reprodução; faz surgir o modelo mental de um objeto basicamente esférico, com um cabo saindo de uma cavidade, recoberto por uma pele de cor variável, contendo uma polpa comestível e caroços, ficando reduzido a um talo quando o comemos; evoca também o gosto e a consistência de diversos tipos de maçãs, (…); traz de volta memórias de bosques normandos de macieiras, de tortas de maçã, etc. A palavra maçã está no centro de toda essa rede de imagens e conceitos que, de associação em associação, pode estender-se a toda a nossa memória. Mas apenas os nós selecionados pelo contexto serão ativados com força suficiente para emergir em nossa consciência.” (LEVY, Pierre. As tecnologias da Inteligência, Editora 34).

Na peça gráfica, a busca por essa referência (Colocamos aqui como referência a ideologia da mensagem, idéia a ser transmitida, ou maneira a induzir a leitura. Os estilos, movimentos e classificações do design moderno, pós-moderno e supermoderno possuem cada um sua ideologia construída de acordo com o período e a situação social, política e cultural de sua época de duração.) se dá por meio da busca de movimentos e estilos que transmitam essa mensagem.

Como exemplo podemos citar a estrutura gráfica de um periódico tradicional e conservador. O designer que prepara a estrutura para uma publicação como esta se espelha na ideologia Bauhausiana (Escola Alemã de Arquitetura e Design Bauhaus, ícone do design canônico ou moderno) e na teoria Funcionalista, assim como diz Ana Cláudia Gruzynski: “Os princípios norteadores do design sistematizado na Bauhaus envolvem a concepção dos projetos e determinação dos elementos gráficos que dele fazem parte. Sua raiz é a noção de funcionalidade que é anterior à própria escola. Contudo, o caráter praticamente dogmático e intrisecantemente ligado ao good design toma corpo a partir daí.“(GRUZYNSKI, Ana Cláudia. Design Gráfico: Do Invisível ao Ilegível, Editora 2AB).

Então, o designer fará uso tanto da ideologia da escola, quanto suas técnicas e
métodos de construção de página. Ou seja, um grid (grade para posicionamento de elementos) será construído, uma tipografia adequada à leitura será escolhida, não será utilizado nenhum tipo de ornamento ou elemento desnecessário, etc.

Isso é diferente para uma publicação que quer fugir da rigidez moderna e partir para a imprevisibilidade, questionando o receptor a todo o momento, assim como explica Kopp: “As características gerais do pós-modernismo se referem a uma estética que rompe com a previsibilidade e assepsia do alto modernismo. Os elementos decorativos, aquilo que era considerado `inútil’ pelos modernistas rígidos, retornaram como recurso visual. A geometria é utilizada de forma descontraída, ou seja, pouca ou completamente despreocupada com a clareza e legibilidade. Passa-se a usar formas livres e flutuantes (diferentes do triângulo, círculo, quadrado). Tendência a fragmentar imagens e criar múltiplas camadas (fotos sobre textura, por exemplo). Uso de espaçamentos tipográficos aleatórios e mistura de pesos e estilos de tipo dentro de uma mesma palavra. Opção por colagens, paródias e citações históricas do design e da arte. Inclusão do ruído (sujeira, imperfeições, rompimento com o acabamento `limpo’, etc.) como
elemento visual. De uma forma geral, essas características encontram-se nos movimentos que, inconscientes disso ou não, fazem parte das raízes do design pós-moderno.
” (KOP, Rudnei. Design Gráfico Cambiante, Editora EDUNISC)

È o caso da revista Ray Gun, uma revista destinada ao público surfista, com
projeto de David Carson. Nesta publicação, Carson trabalhou a ilegibilidade,
substituindo a fonte comumente utilizada por uma dingbats (fonte de símbolos gráficos ao invés do alfabeto), atitude que certamente incomodou, questionou e “cutucou” diversos leitores da publicação.

E hoje? “(…) um tipo de prática que transita entre esses dois extremos
[canônico/moderno e não-canônico/pós-moderno], abarcando todas as
possibilidades, como se chama? É modernista por romper com as práticas
anteriores? É pós-modernista por ser plural, sincrético, mestiço?
” (Kopp, 2004).

É cambiante ou supermoderno a denominação que os estudiosos colocam para o design contemporâneo, que têm como adjetivos flexível, transitório, fugido, cambiante, etc. Esse design que busca vender, transmitir, questionar, buscando referências de diversas escolas e estilos do passado, “(…) Não está ligado a algum pós-modernismo, tampouco a modernismos. Usufrui dos seus estilos e das suas técnicas, sem se identificar por longo tempo com cada um.” (Kopp, 2004).

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3 Responses to “O hipertexto, o design canônico, o design não-canônico e o design cambiante”


  1. 1 Danilo Moura 26/03/2010 às 1:54 pm

    É como um desafio para o designer gráfico transformar em hipertexto…assim como não se usa mais máquina de escrever, como foi comentado na mesa redonda de quarta-feira…é a mesma coisa a transição LP/K7 -> CD -> MP3…VHS -> DVD -> MP4

  2. 2 mayu 03/04/2010 às 1:40 pm

    Um trechinho de mais uma fonte de tudo o que a gente veio discutindo…

    “A passagem da comunicação de massa às novas
    possibilidades técnicas não significa a extinção da mídia
    tradicional, mas a coexistência e mesmo a integração da
    esfera do atual (trabalhado na esfera púbica por jornais,
    rádios, televisão, etc.) com a do ciberespaço, onde são
    proeminentes as tecnologias digitalizadas do virtual. Na
    verdade, estamos ingressando no que Salaun chama de
    uma nova “geração” do audiovisual. A realidade virtual é o
    avatar da evolução técnica das máquinas audiovisuais.” – Sodré

  3. 3 Alexandre Palacio 4ano diurno 17/04/2010 às 4:51 am

    Sobre o trecho que comenta a desconstrução do grid. Gostaria de acrescentar que essa forma de expressão onde a legibidade deixa de ser o fator principal, possivelmente flerta com a parte CÓDIGOS do livro O MUNDO CODIFICADO.
    Para mim esse é um dos caminhos em busca por uma linguagem mais natural e não linear.


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A disciplina de Linguagens Contemporâneas, do curso de Design da UNESP de Bauru, ministrado pelo Professor Dorival Campos Rossi, é o ponto de partida para uma investigação sobre a cibercultura, a Net Art e todas as outras formas de expressão hipertextual, seja ela real ou virtual.
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